quarta-feira, 10 de julho de 2013

The End

 
E porque a vida é feita de mudanças, este blogue chegou ao fim! Mas podem continuar a encontrar-me por aqui! :)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Gaia, Filha do Caos

- "Gostava de estar contigo no mar ... no fundo. Aprender a nadar no oceano que é uma extensão de ti. Sentir que poderíamos ficar no fundo do mar eternamente ... num beijo, num fôlego. Uma inspiração para viver na Terra, em alternativa à saudade da queda do anjo em Gaya. A memória da água matricial. Tudo se movimenta no caos orgânico da criação. Para que o silêncio sagrado conquiste pela espada do tempo o seu espaço no céu. No fundo onde a erupção transforma o fogo em vida. Beijo-te."
 
PAS: - Sinto-me a flutuar nas águas calmas de um rio, na emotividade de uma alma sensível.
Não sem algum medo, volto a mergulhar no oceano. Lugar cósmico, divino, que dissolve as dores, os receios.
As correntes marítimas da quietude acariciam cada poro da minha pele. Eram as correntes ou serias tu?
A serenidade cede lugar ao tumulto das emoções e ondas súbitas arrastam-me para Terra, para Gaia, filha do Caos, irmã da Noite e do Amor.
Vagueio perdida, com saudades daquele toque de água. O vento revolteia os meus longos cabelos. Leva para longe as lágrimas que surgiram no azul de Larimar.
Ao longe, ouve-se uma erupção. Do vulcão Sapporo são expelidos os mais diversos cristais.
Zéfiro e Nótus, ventos do Sul e do Oeste, trazem até mim uma Tempest Stone, pedra caótica da tempestade. Nela visualizo as tonalidades do Cosmos. Visualizo-te. Sinto-te e beijo-te.

sábado, 25 de agosto de 2012

Há imagens (e sequências das mesmas) que nos inspiram a escrever. Que levam a nossa imaginação a voar por entre os limites de um sonho ... ;)

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Luz em trânsito


Som de água no qual flutuo sempre que ocorrem desaguares turbulentos. Único na sua forma bela de fazer vir à superfície as tonalidades escuras e sombrias do Mar.
Negro? Contraditório? Talvez para muitos. Certamente não para todos.
Uma lágrima corre. Dor. Maldito sejas tu, Ego, e os teus apegos ao que é efémero e meramente transitório.
Que o sofrimento ceda lugar à tranquilidade quando confrontado com a realidade da transmutação de mais um ser de luz. Que a harmonia o envolva em mais uma viagem. O embale e o guie por entre as estrelas, por entre as dimensões, por entre os trânsitos.
De tão forte a luz com que nos presenteou, sensível a "mensagem" que deixou e profundas as linhas não escritas com que traçou os contornos de tantas almas, não me "chocou" que a sua passagem por este pequeno lugarejo do Universo não precisasse de ter sido longa.
Longa em termos quantitativos, se é que me entendem !!!
Por cá, vê-se, lê-se, ouve-se, sente-se a sua morte como trágica, chocante, prematura ...
Não gosto da palavra morte nem do sentido que enclausura em si mesma. Nem tão pouco concordo com os termos ou conceitos com que a associaram.
Trânsito. Evolução. É assim que sinto a sua partida.
E que serena seja a sua chegada ao outro lado, a um outro plano existencial, um outro mundo. Ainda mais plena de luz sei que será. E nem poderia ser de outra forma.
Um até já, Bernardo Sassetti !

sábado, 7 de abril de 2012

Eclipse dos Sentidos

- "O nosso tempo chegará com a maturidade da Primavera e com a lassidão do tempo não cronológico. Nessa altura estaremos preparados para estar completamente um com o outro. Será a beleza a falar connosco, a dirigir-se a nós. Sejamos pacientemente activos."

- Sejamos então pacientemente activos.
Quando as cores que preenchem os quadros das nossas essências tornarem-se ainda mais vivas. De tal forma vivas e brilhantes que ofuscarão a constante apreensão da ilusão tempo.
Eclipse dos sentidos !

domingo, 13 de novembro de 2011

Sem Título

Quando entre Clara e o amanhecer se estabelecia um parentesco cúmplice ...
Nada de anseios. Preocupações. Receios.
E as cores? As cores que ilustravam a paisagem ...

domingo, 2 de outubro de 2011

Premissas Dramáticas

O oceano que marulha em nós conduz a uma terra de ninguém !

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O mar fala de ti


Tenho saudades da tua mão na minha. Do tempo que sem ser nosso roubávamos sem pensar. Tenho saudades das nossas palavras desassossegadas e da sensação no meu corpo de que o mar estava perto.
Não sei onde estás quando hoje olho o mar, quando invento as palavras ou a dor e depois, sabes, parece noite ...
Caiu a noite sobre o nosso mar, pesada de silêncios e de abandonos.
Contemplo as ondas desfeitas e as tuas palavras perdidas nas suas espumas.

De regresso à escrita ... ;)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Poetisa

Mal sabia já se estava acordada, se acabara por adormecer, quando apercebi um leve ruído e vi um desconhecido de pé, junto ao tronco da árvore, um homem idoso envergando vestes azuladas e de expressão bondosa.
Recitou alguns versos. Versos tão belos e conformes às normas dos grandes poetas que o meu coração ameaçou estacar.
- Oh, quem és tu, exclamei, que tens o poder de ler na minha alma e dizer versos mais belos do que todos quantos alguma vez ouvi ?
O desconhecido sorriu com o sorriso dos perfeitos e disse:
- Se queres tornar-te poetisa, vem comigo. Encontrarás a minha cabana perto da nascente do Grande Rio, nas montanhas a noroeste. O meu nome é Mestre-da-palavra-de-plenitude.
Com isto, o ancião entrou na estreita sombra da árvore e desapareceu rapidamente.
Sabendo claramente como estava predestinada para ser poetisa, e reconhecendo que os sonhos dos poetas são habitados por uma beleza e um encanto que, em vão, consegue-se encontrar nas coisas da realidade decidi partir à sua procura.
Após ter andado muito tempo cheguei à nascente do rio e encontrei uma cabana de bambu, erguida em absoluto isolamento e, diante da cabana, o ancião que vira junto à margem, perto da árvore, sentado sobre um tapete de vime entrançado. Tocava alaúde, e quando aproximei-me respeitosamente, não se ergueu nem saudou, mas limitou-se a sorrir e fez os dedos delicados correr sobre as cordas. Uma música maravilhosa pairou sobre o vale como nuvem argêntea, de forma que como num doce encantamento esqueci tudo o mais, até que o Mestre-da-palavra-de-plenitude poisou o alaúde e penetrou na cabana.
Segui-o cheia de respeito, e permaneci com ele, como sua discípula.
Transcorreram dois anos, ao longo dos quais aprendi a tocar cítara, flauta e, mais tarde, segundo ordem do mestre comecei a compor poemas e aprendi a arte oculta de, aparentemente, dizer só o que é simples e modesto, mas com isso bulir na alma do auditor, como o vento num espelho de água. Descrevi o assomar do Sol, em como hesita na orla da montanha, e o deslizar silencioso dos peixes, quando eles, como sombras, fogem por sob as águas, ou o balancear de um jovem salgueiro ao vento primaveril, e quando se escutava isto, já não era somente o Sol, e o jogo dos peixes, e o sussurrar do salgueiro senão que, de todas as vezes, parecia que o céu e a terra, por momentos, ressoavam em uníssono, numa melodia perfeita !

terça-feira, 10 de maio de 2011

A Viagem da Coruja Branca


Sinto.
Sinto um fluxo de energia que parte do meu umbigo, aquece-me o ventre e sobe por mim acima.
Deixo o meu espírito libertar-se docemente do corpo, como uma borboleta que se liberta do envólucro da larva.
Torno-me um espírito leve, transparente, imaterial.
Agarro-me ao raio de luz e com ele viajo.
Tudo é azul-claro e branco à minha volta.
Ouço uma melodia com um acorde em dó. Os instrumentos são essencialmente instrumentos de vento. Flautas, Trompas, Didgeridoo. Faz-me lembrar Bach.
De tanto subir, já estou muito alta, no céu.
Largo o raio de luz e não caio.
Sim, não caio ! Olho para a esquerda e para a direita por sobre os ombros e vejo coisas longas e leves.
São asas.
Transformei-me no meu nawal e sou agora uma bela coruja branca.
Passo sobre o oceano, lençol escuro, verde e azul-marinho.
Aquilo que a início pareciam ilhas, são afinal baleias. Um grupo de baleias brancas que cantam e brincam, deixando sair vapor e enfiando-se dentro de água.
Prossigo e chego a uma zona de montanhas altas, quentes e fumegantes. Vulcões. Através da sua lava quente e avermelhada apercebo-me do sangue do planeta Terra.
Gaia.
Aproximo-me de um dos vulcões. Enorme, parece uma boca.
A Terra fala comigo. Emite um som grave e contínuo, de tal forma pesado e subtil que apercebo-me bem da minha incapacidade para o agarrar.
Saúdo então o vulcão e continuo o voo.
Chego a um país quente e vejo um deserto de areia.
As dunas praticamente imóveis fazem-me lembrar uma grande toalha branca colocada sobre um oceano petrificado.
Também é belo o deserto.
O vento que aflora.
Rosas de areia.
Dunas douradas.
Despacho-me e decido ir até ao Tibete, o telhado do mundo.
Avisto Lassa, a cidade dos lamas. Ali os monges utilizam enormes trombetas que emitem sons que fazem vibrar tudo ao seu redor. São vibrações graves que recordam-me a voz da Terra.
Um grupo de lamas medita em enormes salas. Nunca tinha visto tanto espírito levantar voo ao mesmo tempo. Parecem um verdadeiro bando de estorninhos transparentes.
Ao longo da minha viagem, a Terra estende-se sob o meu corpo. Tudo é castanho ou ocre, com zonas de prados verde-claros e verde-escuros.
Ouve-se agora uma música em acorde de sol. Os instrumentos são essencialmente percussões e vozes humanas. A sua composição faz pensar em cantos gregorianos ritmados por tan-tans africanos.
Tomo uma decisão importante e vou até minha casa.
Ali, na Azóia ( Cabo da Roca ), reparo bem no terreno, nas árvores, nas rochas. O meu terreno, as minhas árvores, as minhas rochas, as minhas plantas, a minha relva, o meu céu.
É sobre este terreno que vou construir o meu refúgio.
Nele, hei-de ter um jardim com uma armada de duendes completamente devotados à minha protecção. Instalo uma pequena floresta para que os elfos me possam visitar discretamente à noite. As sereias também não ficarão mal na minha pequena piscina, mas penso em arranjar-lhes uma caverna aquática onde elas se possam esconder. Sabem como são as sereias. São tímidas ... ;)
Finalmente, vou descansar um pouco para a praia.
Uma praia de areia fina e cálida nos bordos de um lago. As cores são pastel. A água é turquesa com reflexos malva. A areia é negra com reflexos lilás. Ouço uma música sobre um acorde em lá. É uma melodia essencialmente dominada por instrumentos de corda: harpa, bandolim, violão.
Penso em Vivaldi e adormeço !

terça-feira, 5 de abril de 2011

Alma de Vento Branco


Provinham da mesma família galáctica. Ele, Vento Ressonante Branco, era filho de Humano Amarelo e Terra Vermelha. Ela, Vento Solar Branco, era filha de Vento Branco e Mão Azul.
Conheceram-se no Ano Mago Planetário Branco, naquele ano em que para ela a noite ainda era um manuscrito celeste e as ruas uma fusão musical.
Em que ela própria era feita da matéria dos sonhos, das miragens, dos poemas, das neblinas, das ficções.
Amou.
Ele levou-a ao mundo das ilusões incontestáveis, à maravilha da magia e da fantasia. Era o caminho secreto que levava às fontes do prazer, aos lugares míticos, aos mares enfeitiçados. Era o seu destino e a sua viagem.
Ele, guiado pelo poder da intemporalidade, canalizava o pulsar dela. Inspirava a realização do seu alento. Ambos selavam a entrada do espírito: ele, com um tom ressonante de harmonização e ela, guiada pelo poder do infinito, com um tom solar de intenção.
Completavam-se. Ele inspirava o espírito. Ela realizava-o.
Escutando a música do vento, tinha por hábito conduzi-lo no seu barco para as nuvens onde o sol e a lua eram apenas para eles dois. De lá, adorava contemplar o rio. Conhecia-lhe as cores, consoante as alegrias ou as dores que manifestava: esverdeada, de chumbo, doirada, prateada, azul-celeste, azul-turquesa. O rio, como as pessoas, possui sentimentos. Tudo o que vive possui sentimentos. Chegou a pensar que as diversas tonalidades do rio correspondiam às alterações da sua sensibilidade.
E, nos momentos em que a lua pintava de prata as paredes do céu, ele aproximava-se dela com o seu cheiro a mar, misturado com alfazema e limão, a sua barba macia onde os seus dedos se perdiam e tomava o seu corpo como ela sempre soube que um dia o tomaria. Tudo acontecia como se a cama de estrelas fosse um barco balançando nas ondas ao pôr-do-sol em gestos lentos que o sono esfarrapava.
( ... )

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Sra Dª Casca de Cacau Torrado


Inspire-se num sabor qualquer que seja, delicioso ou até mesmo desagradável, e conte-nos o que ele lhe inspirar: um conto, uma memória, um desejo, etc ...
Modalidade: livre
Limite: 350 palavras

Numa típica tarde de Inverno, em que tapada pela nostalgia do frio folheava as flanelas de um livro ao mesmo tempo que tomava uma reconfortante leitura quente, Paula aconchegou-se melhor naquele momento perfeito enquanto bebia a sua infusão. Uma mistura deliciosa de ervas com laranja e chocolate.
Fechou os olhos e deixou-se levar pela imaginação, pelo sabor do chocolate.
Sorriu e instalou-se confortavelmente numa casca de cacau torrado que preparava-se para conduzi-la numa viagem através do tempo. Através do tempo e das lendas !
Passaram pela lua prateada e por ventos gelados, descansaram nos campos luminosos do reino dos filhos do Sol, conheceram reis, nobres e guerreiros, encantaram-se por fadas, gnomos e duendes até que recuando e recuando no tempo chegaram a Maztica, reino da deusa maia Xochiquetzal !
Desde há 1000 anos que gotas de orvalho desciam ininterruptamente pela face, enquanto contava a sua história:
Quetzcoalt, senhor do vento, apaixonado por si e não tendo sido correspondido, decidiu vingar-se e, um belo dia, com um furacão, espalhou os seus cabelos ( belos frutos de cacaueiro ) tendo assim nascido a árvore do cacau.
A casca de cacau torrado recusou-se a acreditar e ao trazer Paula de volta, semeou pelo mundo uma outra versão mais doce e poética:
No meio dos índios maias e astecas,
que foram povos profetas
o fabuloso deus do vento
com todo o sentimento

Para trazer alegria
e muita harmonia
para o homem na Terra
preparou uma surpresa em plena Primavera

Através de uma brisa que inspirou um sorriso
ele trouxe sementes de cacau do paraíso
então estas sementes trouxeram fantasia e alegria
pois com elas o Homem descobriu o chocolate com muita poesia.

E foi assim que nasceu a famosa poetisa Sra Dª Casca de Cacau Torrado !

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Viagens

Quando descem as pálpebras, abre-se o silêncio da plácida contemplação de mim e começo a viajar.
Há viagens que temos que fazer dentro de nós. Nelas encontramos vivências, lugares, afectos desaguados em estranhas penumbras de nada.
Regresso.
E quando regresso retoco de cor alguns buracos de mágoa, enquanto guardo na mão o querer, o querer aceder àquele assustador mas deslumbrante mundo de mim.
Aquele mundo que te evoca no lugar do amor !
E lembro-me sempre da Lua.
Lua que mora no arco do céu. Cigana aninhada num sonho só seu. Recortei a Lua ... seu olhar moreno, seu peito vadio amargo veneno. Pendurei seu seio no canto onde o sonho se casa com o meu.

domingo, 26 de dezembro de 2010

O Sol

Imagine que hoje o Sol não sai, está de greve ( talvez seja depressão ou estará em luta para não alargar o tempo até atingir a idade da reforma ... ou por qualquer outro motivo ).
Porque não brilha hoje o Sol e quais são as consequências ?

Modalidade: livre
Limite: 350 palavras

Após milhões de anos em constante guerra com Hanuman Jayanti, a Lua, um dia o Sol começou a cair. Tinha sido atraiçoado por Sirius, o rei das estrelas. Desiludido, pôs-se a pestanejar, a mover-se, a sua luz apagou-se e mal se via.
Na Terra, as pessoas começaram a esfregar o corpo, tremendo. Era o frio.
Na semiobscuridade, desacostumados, assustados, os homens desesperavam, deambulando às cegas, tropeçando. Onde estou ? Onde estão os meus parentes ?
O vento começara a soprar. Uivando, agitando-se, levava as cristas das palmeiras e arrancava pela raiz as árvores.
A chuva caía estrepitosamente, provocando inundações. Os rios mudavam de curso, os pequenos lagos viravam rios. As borboletas invadiam as casas. Ouvia-se o constante piar da coruja.
Durante a noite, o rio cresceu tanto que, ao amanhecer, estavam rodeados de águas revoltas, pejadas de paus, arbustos, tojos e cadáveres que se desfaziam ao embater nas margens. A toda a pressa cortavam madeira, improvisando jangadas e canoas antes de a inundação tragar o ilhéu em que a Terra se convertera. Tiveram de lançar-se às águas lodosas e pôr-se a remar. Remavam, remavam, remavam. Muitos afogaram-se nas correntes, quando algum tronco, submerso, invisível, rachava a jangada e arrebatava as famílias.
Também as almas perderam a sua serenidade. Ao mudarem a sua maneira de viver, perturbaram a ordem do mundo, desorientando o espírito dos que se foram. Estes, confundidos com as mudanças, erravam pelas florestas, órfãos, gemendo no vento. Por isso aconteciam, talvez, as desgraças !

sábado, 16 de outubro de 2010

Recordar-te

Recordo-te. Meigo, agarrando-me com um beijo e um abraço fechado, como se os braços contivessem neles e naquele momento uma união que sempre parecia ter sido. Fazíamos dos olhos cofres onde nos guardávamos em silêncios de amor. As nossas mãos encostadas beijavam-se e penetravam-se de tanto pertencerem uma à outra; e falavam; diziam o que as palavras adiavam, como se ficassem suspensas pela vontade de perpetuar esse encantamento que nos embebedava um do outro. Íamo-nos entregando sem dar um nome a essa entrega, como se no dia em que o fizéssemos o encantamento se quebrasse. Mas esse encantamento tinha um senão: deixava vazios - quando saía do teu abraço, ficava-me apenas a ausência dele; ficava-me apenas aquele silêncio de ti, que se perpetuava até ao dia em que voltávamos a encontrar-nos. O encantamento parecia apenas ser possível naquele dia, naquelas horas, naquele espaço, em que não era preciso dar nome às coisas que aconteciam quando nos olhávamos - pertencíamo-nos, ali, naquele momento, naquele tempo, naquele espaço; virávamos as regras do mundo e podíamos ser um do outro porque, quando acabava, afinal tudo continuava igual e o mundo lá fora persistia impávido e intocado. Parecia que havíamos reconquistado o poder da nossa magia da infância, em que o brincar ao faz-de-conta nos permitia aceder a momentos de felicidade supostos impossíveis, a realidades contornadas e esculpidas na medida dos nossos desejos. Era uma magia que permitia conciliar alegremente o querer e o não dever, o desejar e o não poder, como se precisássemos urgentemente desse espaço aconflitual para nos permitirmos sentir o que sentíamos, para nos permitirmos ser ... só que a magia tem prazos, sob pena de sermos engolidos por ela e desaparecermos do mundo real, para figurarmos em histórias intermináveis de fadas madrinhas, príncipes e princesas encantadas, mas irreais.
E o encantamento iria persistir sem a magia ? Sim, persistiu, mas foi cedendo ao tal mundo que parecia impávido, mas não era; até porque agora, sem a magia, o mundo já não era só nosso, nele já não podíamos fazer-de-conta.
E então, foste-me danto a tua ausência ...
Sabes que havia dias em que acordava e era como se uma mão de negrume se apoderasse da minha alma e era tudo negro, cá dentro ?
Faltavam-me a força, a cor, o quente, a luz.
Enclausurei-me no mundo das memórias; da vida apenas queria o silêncio total, para que aquelas não esvoaçassem para longe, onde não as pudesse tocar mais.
Já passou tanto tempo ...
A dor amansou; vais saindo de mim e o teu ir é o deixar de sentir; é já não experimentar o tumulto da pressa do coração com as letras do teu nome; vejo-te ali, mas já não somos uma ténue mistura.
Contigo foi-se também o vazio negro, o abraço de geada onde eu me dependurava, a querer enganar a solidão. Estou só, mas é uma solidão mansa, a do reencontro. Há muito que me perdera de mim e ainda está quase tudo por desvendar !

domingo, 11 de julho de 2010

Como os bambus

Como os bambus, oscilo no vento dos meus pensamentos e vislumbro devagar a tua dor, o teu medo, que ferem e explodem em mim em ausências e vazios que desertificam a alma.
Hoje depus as ilusões, não quero mais, o cansaço tomou conta de mim !
Por vezes ainda sinto saudades do tempo em que acreditava que irias entrar pela janela, com as mãos cheias de luar para mim. Mas nada mudando, este nosso desencontro embarga uma enorme tristeza: o meu olhar iria anunciar a tua dificuldade em viver de perto o amor; sei que irias chorar para dentro. E eu, a querer bailar contigo, olhos nos olhos, o coração a bater com o teu, iria chorar também e escondida, para não te entristecer ainda mais, com a desilusão que me darias.
A dor que me deixaste é a tua dor. E agora que já a embalei com a inocência do meu amor por ti, no quanto te sonhei e aos teus silêncios, leva-a contigo. Aceita o que ela te fala de ti, não a entornes, ou esvazias-te das cores que te podem preencher de quentura.
Acabou o tempo de guardar a tua dor. Toma-a para ti, talvez agora adormecida vá cedendo lugar àquela luminosidade que te fará feliz se não temeres o arrebatamento da liberdade, o encantamento.
Vou partir. Sei que me escolheste para guardiã do lugar do teu afecto, o teu lugar mais profundo, mas intocado, embora em forma de dor ... fica-me esse sussurro das recordações de ti.
Levo comigo o que sempre te dei e se multiplicou porque o vivi contigo - o amor. Sinto-me apaziguada pela dignidade de te ter oferecido , mesmo em momentos de indizível crueza, a generosidade, o despojamento, a honestidade, a inocência; são as pétalas que vou levar nas mãos, para o caminho.
Dei-te o meu melhor sem me ter empobrecido !
Parto com a brisa quente da serenidade. A raiva foi um vento veloz que se dissipou, porque te guardo no lugar do amor, o meu lugar mais límpido.
Guardarei a ternura do nosso encontro, que sei, foi para sempre. Já não sofro porque te perdi, amanheço, e vou mais plena porque te encontrei, um dia ...

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Número 13

Escolha um número e explique-o ! Fale-nos desse número como se fosse uma entidade e um ser pensante.

13. Agora sou conhecido como número 13.
Não, por favor, não fujam de mim. Como é que é possível terem-me receio se não sou mais que o fruto de uma bonita criação de amor !
Sim, sim, isso mesmo que ouviram. Ora ouçam com atenção:
Há muitos, muitos números atrás, no distante reino da Numerolândia, existia uma pintora bela e romântica de nome 3.
3 era, desde que se conhecia, apaixonada pelo guerreiro impetuoso 1, famoso pelos seus heróicos actos de bravura.
Sentindo-se ignorada pelo egocentrismo do seu amado, 3, enchendo-se de coragem, reuniu todas as suas tintas e comprou uma tela encantada.
Nesta, desenhou a sua imagem bem como a de 1. E foi então que de forma criativa e apaixonada, e seguindo as instruções do feiticeiro 7, apagou com largas pinceladas pretas o egoísmo e individualismo de 1, realçando com uma bela cor azul a sua iniciativa e pioneirismo.
Na sua imagem realçou com cores fortes o seu entusiasmo e capacidade de sedução. E foi então que os traços e linhas ganharam forma e fundiram-se num único número: o número 13, tão bem conhecido pela sua capacidade de recomeçar e encetar novos desafios !

domingo, 25 de abril de 2010

No Reino Livre das Imagens ...

"Crie três a cinco imagens que utilizará num texto ficcional ainda por escrever. A fábula pressupõe o encontro fugaz de um homem e de uma mulher numa área de serviço. Durante quatro anos, sem saberem nada um do outro, encontram-se no motel dessa área de serviço no dia 16 de cada mês impar. O esquema falha apenas cinco vezes, durante esse longo período. No final, quando a mulher do protagonista descobre que tem uma irmã (apenas do lado do pai), os amantes vêem-se subitamente numa festa familiar. A aventura parece acabar de repente, mas, um dia, a casa do casal mais feliz de Alcochete aparece desfeita em chamas (cada imagem deverá ser sucintamente descrita em não mais do que cinco a seis linhas)."


Primeira Imagem
Os segundos passaram. As horas passaram. Os minutos. Os dias. Os anos. Quatro.
Apenas o motel da área de serviço como testemunha intemporal da felicidade daqueles instantes entre um homem e uma mulher. Instantes que se repetiam todos os dias 16 de cada mês ímpar.
O pêndulo do tempo memorizou os acontecimentos posteriores: a alegria perante a descoberta de um inesperado vínculo familiar; a surpresa da festa em família, mas sobretudo a angústia do fogo a devorar aquele quadro !


Segunda Imagem
O calor insinuava-se rapidamente pelas ruas de Alcochete, demorando-se um pouco mais a envolver o motel da área de serviço.
As suas paredes frias e desarmónicas contrastavam com a alegria que emanava dos encontros fugazes entre aquele homem e aquela mulher. Durante quatro anos, sempre ao dia 16 de cada mês ímpar.
A felicidade perante a descoberta de uma irmã foi celebrada numa festa familiar cujo carácter intimista unia ainda mais os dois amantes.
A harmonia das suas expressões faciais transfigurou-se em horror perante aquele cenário em chamas !


Terceira Imagem
Durante quatro anos e sempre ao dia 16 de cada mês ímpar, o motel da área de serviço da zona de Alcochete era testemunha da felicidade que emanava dos encontros fugazes entre aquele homem e aquela mulher.
As suas paredes límpidas espelhavam a harmonia do rosto feminino e a plenitude da face masculina.
O sentimento foi reforçado com a alegria da descoberta de um inesperado parente e celebrado numa festa em família, apenas ensombrado pela cor viva das chamas que repentinamente deflagraram na casa.

... e crítica às minhas imagens !

No seu texto verifica-se que há imagens com autonomia e força própria, isto é: respiram uma voz particular e actuante e, portanto, como escrevia mais acima, acabam por falar por si (por exemplo: “O pêndulo do tempo”).

Por outro lado, a imagem implica e desperta, de modo pertinente, vários mundos. Tal acontece, quer por conotação (novos conteúdos que se atribuem a uma mesma expressão que começámos por denotar), quer por associação lógica (conteúdos que se reúnem aos presentes na figuração por ilação de cariz indutiva, dedutiva, ou abdutiva, i.e., por conjectura), quer ainda por pendor metafórico (espécie de osmose entre semas de sememas diversos). Neste último caso, de modo diferente, imagens como “O calor insinuava-se” e “cor viva das chamas” funcionam muito bem sobretudo por conjectura e conotação.

As imagens são também mecanismos ficcionais – isto é, organismos contadores de histórias.
Nesta medida, pode dizer-se que a ficcionalidade das imagens por si criadas sugere um vasto leque de percursos narrativos. E se esses percursos narrativos não são demasiamente explicitados (e ainda bem!), não deixa de ser verdade que as suas imagens os prefiguram e até cartografam (por exemplo: “paredes frias e desarmónicas” ou “transfigurou-se em horror”).

Daí que o seu texto se constitua como uma interessante peça imagética de oficina para o enredo que se iria escrever.
Um exercício muito completo, portanto.

Desejo-lhe uma óptima semana!Com toda a estima e amizade, Luís Carmelo.