Nada de anseios. Preocupações. Receios.
E as cores? As cores que ilustravam a paisagem ...
Mal sabia já se estava acordada, se acabara por adormecer, quando apercebi um leve ruído e vi um desconhecido de pé, junto ao tronco da árvore, um homem idoso envergando vestes azuladas e de expressão bondosa.
Quando descem as pálpebras, abre-se o silêncio da plácida contemplação de mim e começo a viajar.
Imagine que hoje o Sol não sai, está de greve ( talvez seja depressão ou estará em luta para não alargar o tempo até atingir a idade da reforma ... ou por qualquer outro motivo ).
Recordo-te. Meigo, agarrando-me com um beijo e um abraço fechado, como se os braços contivessem neles e naquele momento uma união que sempre parecia ter sido. Fazíamos dos olhos cofres onde nos guardávamos em silêncios de amor. As nossas mãos encostadas beijavam-se e penetravam-se de tanto pertencerem uma à outra; e falavam; diziam o que as palavras adiavam, como se ficassem suspensas pela vontade de perpetuar esse encantamento que nos embebedava um do outro. Íamo-nos entregando sem dar um nome a essa entrega, como se no dia em que o fizéssemos o encantamento se quebrasse. Mas esse encantamento tinha um senão: deixava vazios - quando saía do teu abraço, ficava-me apenas a ausência dele; ficava-me apenas aquele silêncio de ti, que se perpetuava até ao dia em que voltávamos a encontrar-nos. O encantamento parecia apenas ser possível naquele dia, naquelas horas, naquele espaço, em que não era preciso dar nome às coisas que aconteciam quando nos olhávamos - pertencíamo-nos, ali, naquele momento, naquele tempo, naquele espaço; virávamos as regras do mundo e podíamos ser um do outro porque, quando acabava, afinal tudo continuava igual e o mundo lá fora persistia impávido e intocado. Parecia que havíamos reconquistado o poder da nossa magia da infância, em que o brincar ao faz-de-conta nos permitia aceder a momentos de felicidade supostos impossíveis, a realidades contornadas e esculpidas na medida dos nossos desejos. Era uma magia que permitia conciliar alegremente o querer e o não dever, o desejar e o não poder, como se precisássemos urgentemente desse espaço aconflitual para nos permitirmos sentir o que sentíamos, para nos permitirmos ser ... só que a magia tem prazos, sob pena de sermos engolidos por ela e desaparecermos do mundo real, para figurarmos em histórias intermináveis de fadas madrinhas, príncipes e princesas encantadas, mas irreais.
Como os bambus, oscilo no vento dos meus pensamentos e vislumbro devagar a tua dor, o teu medo, que ferem e explodem em mim em ausências e vazios que desertificam a alma.
Escolha um número e explique-o ! Fale-nos desse número como se fosse uma entidade e um ser pensante.
"Crie três a cinco imagens que utilizará num texto ficcional ainda por escrever. A fábula pressupõe o encontro fugaz de um homem e de uma mulher numa área de serviço. Durante quatro anos, sem saberem nada um do outro, encontram-se no motel dessa área de serviço no dia 16 de cada mês impar. O esquema falha apenas cinco vezes, durante esse longo período. No final, quando a mulher do protagonista descobre que tem uma irmã (apenas do lado do pai), os amantes vêem-se subitamente numa festa familiar. A aventura parece acabar de repente, mas, um dia, a casa do casal mais feliz de Alcochete aparece desfeita em chamas (cada imagem deverá ser sucintamente descrita em não mais do que cinco a seis linhas)."
No seu texto verifica-se que há imagens com autonomia e força própria, isto é: respiram uma voz particular e actuante e, portanto, como escrevia mais acima, acabam por falar por si (por exemplo: “O pêndulo do tempo”).
Continue a narrativa de Italo Calvino, tentando articular o seu texto com um dos condimentos de humor aristotélicos, seja oriundo da Poética ou da Retórica !
“No dia em que Atla morreu, Os homens juntaram-se na taberna diante do porto velho. Enquanto atiravam aguardente para as gargantas e olhavam as gaivotas com a persistente angústia que amofina os pescadores quando estão presos em terra, recordaram que Atla, enquanto viva, era a mais bonita mulher que jamais tinham visto, ali ou em qualquer outra parte do mundo. Dois ou três suspiraram profundamente, como se a estivessem vendo tal como ela era nos seus dias de mais espantosa beleza, quando trazia soltos os caracóis do cabelo e o sol lhe incidia no rosto moreno. Um deles derramou no chão algumas gotas do bagaço. Um outro disfarçou a lágrima que tinha no canto de um olho.