sexta-feira, 21 de novembro de 2008

... e comentário ao meu 'desenlace' !

" Com toda a sinceridade, o texto ilustra a compreensão profunda de que o mais importante na narração é a criação (invenção) desinibida de acções que se enredam, organizam e engrenam. No texto, há registos muito interessantes (exemplo: “Olho novamente para as flores e vislumbro nelas um refúgio secreto, seguro, reflexo de mim próprio”). O discurso sinaliza um tipo de itinerário narrativo íntimo e egotista que acaba por ser marcado, de modo bastante explícito, por uma atitude de dissociação simbólica do passado “Incapaz de tolerar mais tal sofrimento, acabo de beber o meu copo de água e, à saída, desfaço-me bruscamente delas.” Na solução do exercício, não ficou apegada à relativa suspensão que é patente no texto de Miguéis (e onde o tema é a solidão desconcertada), nem se limitou a expandir as pequenas acções despertadas nesse original (extremando, por exemplo, a lógica de encontro fortuito com o já referido "moço do casaco amarelo", no que podia ser entendido como um ajuste de contas simbólico com o mundo). Pelo contrário, e com bastante perspicácia inventiva, o texto acabou por gerar novos "mundos possíveis" a partir dos "mundos" que lhe eram fornecidos pelo original e conduziu a atenção do leitor para onde ele menos esperaria. Na primeira parte recorrendo a uma espécie de ironia memorial, na segunda parte entrando no coração da acção que quase se torna imprevista, tal é o cariz decidido e inapelável que a anima. Enfim, podia ainda ter optado pelo destino da caminhada solitária a braços com obstáculos poderosos, por uma situação maquiavélica pós-enredo, ou ainda pela radicalização da relação entre actantes. Outras soluções não faltariam. Mas não, preferiu encontrar soluções ainda mais inventivas que concordam, na essência, com o princípio de desenlace que já evocámos: dar ao leitor o que ele pretende e deseja, por empatia e/ou comunhão de expectativas, mas jamais do modo (e com o ritmo narrativo) esperado.
É normal que o ‘peso’ do recente estudo da descrição iniba ainda um pouco, aqui e ali, o propósito narrativo. Mas ele já emergiu, hoje, com muita qualidade e com todo o potencial.

Despeço-me com toda a estima e amizade, Luís Carmelo. "

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