sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Carta para a minha irmã ...


Olá querida irmã !

Espero que esteja tudo bem contigo e com a Mãe ! Ela está melhor ? Que pergunta a minha ! Como se isso ainda fosse possível, se é que alguma vez foi, não é Ana ?
Ontem cheguei aqui tarde da noite ... tinha planeado vir mais cedo, mas como já deves saber, eu e o Vicente tivemos mais uma daquelas discussões.
Precisei de acalmar-me e reflectir um pouco antes de encetar esta pequena viagem !
E que bem me fez voltar a percorrer vagarosamente estas estradas circundadas por suas belas e místicas paisagens !
Entrei nesta vila que me é tão querida e acreditas que senti-me logo transportada para todo o encanto de um mundo mágico e surreal há tanto tempo perdido ?
Pois é, recordei-me também das vezes de quando éramos crianças e vínhamos para aqui passar as nossas férias de verão com a mãe e o pai ... na altura da inocência, da brincadeira, da coerência connosco próprios ... na altura em que ainda conhecíamos o sentido da palavra felicidade !
Nem sabes o quanto me senti protegida mal aqui cheguei ... todas estas árvores com seus grandes ramos que rodeiam as estradas como que se metamorfosearam em seres mágicos com longos e acolhedores braços que me envolveram e me acarinharam ternamente e fizeram-me, ainda que momentaneamente, esquecer, esquecer, esquecer ...
Hoje de manhã desci a pé até ao centro histórico, passei pela Periquita e regalei-me com um estaladiço travesseiro !
Que saudades, Ana, que saudades !
Quando passeava pelas ruas encontrei o Sr Casimiro ! Lembras-te dele e das pequenas diabruras que lhe fazíamos ?
Pois é, já está reformado e dedica-se agora a uma pequena oficina de artes decorativas.
Assim, disse-me ele, ocupa a cabeça, a alma e o coração, não pensando tanto nas saudades que tem da sua falecida esposa, a Dona Augusta.
Coitada, morreu de cancro no ano passado !
Continuei a minha caminhada, e animada por um novo fôlego há muito desconhecido em mim, fiz uma bela subida até ao Castelo.
Senti-me uma outra pessoa ! Respirando, absorvendo e deliciando-me com toda a pureza deste ar.
Prossegui caminho e dirigi-me para o Palácio ! Entrei para uma visita e vagueei, recordei, sonhei !
Como que entrei numa máquina do tempo e regressei à época medieval ... o meu corpo em pleno Séc XXI e a minha alma transportada para uma vivência que me é tão estranha e dolorosamente familiar !
Fui até à varanda e extasiada perante tamanha beleza, senti uma dor profunda que me despertou para a irreversível inacessibilidade de tudo o que é Belo !
Senti-me de tal forma angustiada, que perante tal verdade, tudo o resto me pareceu insignificante ... o Vicente, a dualidade, o livro inacabado, ...
Perdoa-me Ana, mas senti a necessidade de escrever-te estas linhas.


Dá um grande beijinho meu à Mãe !
Paula



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