segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Instante Eterno

- Aqui e agora. A prudência do controlo da emoção que esvoaça na criativa imaginação do sentir, onde o impulso para amar não é contido por energias dos meus pensamentos. Porque este descontrolo sem controlo da razão para o encontro com o momento da dor, da ansiedade, da incerteza, da tempestade onde não se consegue tocar por entre a confusão ludibriante dos afectos sentidos. O que sinto deixou de fazer sentido pois há muito que perdi o amor. Talvez o colo que sempre precisei para celebrar o dito inevitável amor.

- No instante eterno da memória do nosso tempo, as emoções esvoaçam livremente, ultrapassando os limites da prudência e desafiando as grilhetas dos pensamentos que tentam aprisionar o poder deste sentimento belo e terno no seu ingénuo sentir.
E é quando a razão anestesia a tua dor, controla a tua ansiedade, acentua a incerteza da tua certeza e acalma de forma efémera a tua tempestade interior, que a aurora dos sentidos ribomba tempestuosamente despertando uma vez mais de forma doce, mas exponencialmente poderosa nos recônditos cantos do teu coração.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Meu Amor

Meu amor, é tão mais fácil pensar que amas quando tudo corre bem, quando todas as pessoas apoiam esse sentimento, quando o doce aroma da razão tenta-te levar para longe da minha brisa.
Acredito que penses que não seja realmente possível amar enquanto és acometido por dificuldades e provações, e perante a certeza de que tudo e todos estão contra ti. E é precisamente quanto tu te encontras em dificuldade e tens tendência para fechar o coração e bloquear o fluxo do meu amor, que este corre ainda com mais intensidade na sua verdade inquestionável.
A minha brisa é terna, mas também forte e perseverante. Inquebrável e intocável. E tal como a água, vai abrindo passagem no mais empedernido dos corações.
Ela conhece e sente o teu amor, sabendo agora que não pode nem sabe como fugir dele. Também sabe que não o quer reter, pois à menor tentativa escapar-se-á como água entre os dedos.
Sabias meu amor, que não te posso possuir nem ao teu amor ? Ele é livre como o vento e vai onde quer, sem barreiras ou limitações. Com ele virá a liberdade, aquela que libertará e quebrará as grilhetas da tua alma aprisionada ainda pelo medo e pelo aroma agridoce da razão.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Ando à busca de mim

Ando à busca de mim, sem me encontrar
Por caminhos, veredas e valados,
Por matas, selvas virgens e silvados,
De dia, em noite escura ou ao luar.
Afinal, o que sou ?
Sou um acervo incrível de emoções
Carregadas de tais contradições,
Que me fazem sofrer horrivelmente.

Cheguei bem !

Pela brisa nocturna penetrei enfiado na doce companhia da tua estrelinha, que iluminava o escuro caminho por ao som dos sentidos me guiou ao meu destino, aquele do quente afecto que me desperta o sentir de ti agora que acabo de chegar ao sítio da minha casa, residência do sentido do nosso Amor ! Bom, cheguei bem ! Bjs

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Ser Diferente

Também eu sou diferente, não especial, mas simplesmente diferente. Desde sempre que assim me sinto ... viajante intemporal de um destino único, de uma aventura sem igual entre tantas outras.
Se gosto de ser diferente, perguntas tu ?
Sim, gosto !
Se sou feliz assim ?
Muitas vezes. Mas são inúmeras as alturas em que sofro e choro. Incompreendida num mundo no qual imperam o materialismo, as convenções, o moralismo, a hipocrisia ! A razão e não o coração. O corpo e não a alma. A aparência e não a essência.
Entristece-me saber que pertencemos a uma sociedade transformada num mercado de tédio, sem poesia e sensibilidade, em que somos constantemente avaliados pela marca da embalagem e não pela qualidade do conteúdo.
E por isso viajo para bem longe ... viajo pela arte de ler. A realidade é dolorosa e imperfeita e magoa, mesmo quando, por instantes, nos parece um sonho. Descobri então que nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autênticas, e sem a dor verídica de tudo o que realmente existe.
Mas ainda assim, e apesar das lágrimas vertidas, nunca deixarei de amar as coisas mais simples; de fazer de cada aurora um momento de meditação; de considerar o orvalho da manhã como pérolas anónimas que por instantes aparecem e logo se dissipam, sendo apenas notados pelos seres sensíveis e até de despedir-me da Lua como quem se despede de uma amiga.
Enfim, nunca deixarei de ser eterna sonhadora, poetisa da vida e arquitecta de belos castelos no ar.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Brisas

- As brisas, será que passam pelos becos ? Ou serão os becos que não deixam as brisas passar ? Sinceramente é o ar da brisa que preciso para viver, para encontrar e experimentar o suave perfume da flor que liberta os sentidos de quem adormece no crepúsculo da confusão, de onde se esconde no colo da fantasia, ansiando pela aurora fascinante da redescoberta da sua verdade então envolta nas brisas inebriantes dos becos do dito inevitável Amor !

- A brisa da aurora deambula livremente, sem grilhetas ou grilhões, por entre as frágeis paredes dos becos. Passa-as melifluamente, sorrindo suavemente para os seus cantos e recantos escuros, cantando e encantando quem com ela se cruza.
Fonte da vida, guardiã da felicidade eterna, lança feitiços perfumados de amor mágico, esquecendo-se que ela própria apenas a ELE pertence.

sábado, 7 de novembro de 2009

Aurora

- Brisas, Brisas, Brisas, é o que me assalta a emoção. Devasta e ocupa copiosamente o meu pensamento. Sei hoje o que posso dizer sobre a amor e sinto o quanto sofro por o conhecer, é uma imensidão de brisas sedosas que se passeiam em cascatas frescas e tumultuosas procurando o repouso no sossego silencioso do lago do afecto onde a clareza se reflecte e confunde com a Lua, local de todos os sonhos que se querem realizados. São as dores de outros amores que me deixam ainda adormecido para a celebração do dito inevitável Amor, que corrompe a lógica da brisa do pensamento. Como sufoco por encontrar a chave das grilhetas que apertam a minha alma. Mas só a tua brisa me leva ao mundo gracioso da dor, ou seja, do dito Amor.

- Brumas, Brumas, Brumas é o que me assalta o coração.
Toldam de melancolia a minha natureza alegre. Sempre soube o que dizer sobre o Amor ... nunca pensei vir a sofrer por causa dele. Amar é navegar pelas águas das incertezas ao sabor das correntes contrárias que redemoinham a tua alma. É ondular docemente ao ritmo suave da brisa que embala a tua dor. É sentir o fogo a queimar os teus limites. O controlo a desaparecer por entre as areias movediças.
São as reminiscências de outros amores que corrompem não a lógica da brisa do pensamento, mas sim a lógica da brisa do sentimento e que corroem a celebração do dito inevitável Amor.
Apenas na liberdade tormentosa dos vendavais, maremotos e terramotos encontrarás, finalmente, a clareza necessária para seguires as singelas nuances que conduzirão à chave das grilhetas do teu corpo.
A minha brisa viaja pela essência do teu mundo, despertando a aurora da tua alma há muito adormecida pelo crepúsculo morno do dia entretanto extinto.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

The Last Dance

- Adorava ser livro agora para poder estar mais tempo debaixo do teu olhar, da tua atenção, nas tuas mãos, do teu colo ... embalaria com a brisa do silêncio até ao lugar do Amor. Só um momento em que te senti fundo dentro de mim, encontrei liberdade e profunda paz - que mais posso desejar ?

- E eu, meu amor, apenas posso desejar ser o marcador do livro da tua vida e poder, para todo o sempre, acariciar as letras do teu corpo e amar as páginas da tua alma.

- Estar. Sentir. Cada momento longe da tua brisa sufoca o meu corpo de saudade, uma dor do amor. Estou, estou, estou. Sinto, sinto, sinto. Cada momento ausente de ti inunda o meu coração profundo de uma hilariante experiência de afectos. O amor impera sobre tudo. Estou, estou, estou. Sinto, sinto, sinto. Que cada momento é vida, é energia geradora do impulso de ti em mim. Quero-te aqui e agora na eternidade do Azul do teu olhar.

- O Azul do meu olhar busca uma tarde eterna de mar, na qual os teus olhos que como barcos ao longe me ofereceste, navegam por entre a pele da minha alma sem rumo.
O Azul do meu olhar velejará pelos mares da ansiedade, escalará as montanhas dos medos e percorrerá os vales das decepções para não deixar o nosso amor morrer.

- E eu farei das montanhas e dos vales o caminho onde a energia do nosso amor se regenará e encontrará a cada dia a inspiração para se expressar e crescer na sua suprema plenitude.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Perfume de Prata

À medida que caminho ao longo do extenso areal, e aproveitando a distracção do minuto que zanga-se com o segundo, o meu olhar deambula pelo azul agreste do mar.
Escolho o local contemplado pelo conforto de ideais e delicio-me com a areia a acariciar suavemente os dedos dos pés.
Timidamente, as convencionais amarras do tecido libertam a minha pele, deixando-a solta de preconceitos e livre para amar e ser amada em total consonância com os seus preceitos.
Naquele instante, em que o tempo pára extasiado perante a reconciliação entre o segundo e o minuto, estendo a toalha e deito-me sobre ela.
Um sentimento avassalador de completa plenitude toma de assalto a minha essência, reconciliando-me com os pilares da grande arquitectura do Universo.
O Sol afaga cada poro do meu ser, que por sua vez, espanta-se com a força de carácter do singelo grão de areia.
Zéfiro, vento do oeste, suave e agradável, ao brincar com as ondas do mar traz consigo a doce brisa marítima que perfuma com beijos de espuma os mais recônditos lugares do meu corpo.
Embalada pelo silêncio da sua ternura sou então conduzida para os braços do amor infinito, intemporal, eterno. Amor que não conhece idade, espaço ou tempo. Amor desafiador dos limites humanos e das convenções sociais.
Qual poetisa da Natureza, sinto-me parte integrante de um mundo único, paradisíaco, irreverente. Bálsamo para a alma inebrio-me com uma cada vez mais infinita capacidade de sonhar. Sonhos de ruptura definitiva com paradigmas. Sonhos de comunhão perfeita entre o ser e o estar, o querer e o poder, o desejar e o ter. Sonhos de quebrar com os grilhões dos meus medos, dúvidas e incertezas. Sonhos de nos sonharmos como um sonho de sonho.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Danças Cúmplices

- Olho-te nos olhos com mais ousadia. Aproximo os lábios, não te posso ouvir, quero beijar, e beijar, e beijar ! Quero beijar, e beijar, e beijar.

- São os teus olhos que brilham na primeira luz de cada manhã. O quarto onde dormimos abraçados estavam cheios de momentos que passaram devagar para a eternidade.
Enquanto dormias, a tua respiração era a manhã a respirar lentamente em todos os lugares iluminados do mundo. Os teus olhos fechados eram a manhã lenta.

- A memória de ti é o único refúgio seguro que encontro para te olhar. Vivo ao tutano cada sopro da tua imagem como que contemplando ...

- Existes sempre na memória que me enche de sonhos. Os teus dedos tocam-me dentro dos sonhos. Nos teus lábios, imagino beijos. Perco-me no mundo e nem imaginas como o meu peito fica vazio depois de partires. O teu sorriso existe ainda dentro de mim, mas já não és tu. É a tua imagem. Não penso para onde foste porque o meu peito, sem ti, fica atravessado por lâminas.
Fecho os olhos para te ver e para não chorar. Fico acordada de noite, com a esperança secreta de que possas regressar, pois um instante na memória de chegares é mais valioso do que jardins. do que montanhas. do que anos de tempo.

- Sinto-me cansado de lutar, estou vulnerável, preciso de colo, como uma criança que embala no doce aconchego do amor, pois para mim só a água onde bracejo me lembra onde posso estar contigo quando sonho com a paz. Sim, a paz de estar em paz. A paz de espírito, a paz do Amor.

- Amo-te, meu amor. Não por tédio, por solidão ou por capricho. Amo-te porque o desejo de ti é mais forte do que qualquer felicidade.

- Parece que para conhecer a felicidade, precisamos também de ver o tédio, experimentar a solidão e compreender o capricho. Mas só eu sei o que sinto por ti ! O meu pedaço de felicidade passa pelo amor que experimento quando a imagem de ti atravessa o meu coração.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Onde mora a felicidade

Estado de alma que habita num local longínquo e inacessível a todos aqueles que facilmente escorregam nos seixos pontiagudos do rio da vida.
Deambula ao ritmo do vento transformando paisagens humanas como se fossem quadros em constante movimento.
Pinta com longas e largas pinceladas as dunas dos nossos desertos, tece os fios dos nossos destinos, navega sem rumo ao sabor da corrente dos mares de Requiem.
Todos os seus momentos não têm onde, como ou porquê. Apenas existem e perduram ao longo dos tempos no seu estado nómada de bela bailarina do acaso, que move-se ao som melódico do imprevisível.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Saudade

Imagine que tem um jardim - o que plantaria nele ? Use a terceira pessoa do singular !

Zéfiro e Nótus avistaram-na ao longe. De redemoinho em redemoinho, competiam alegremente entre si para ver quem chegava primeiro junto dela e brincava com os seus longos cabelos de sol.
Nótus, vento do sul, quente mas rebelde. Zéfiro, vento do oeste, suave e agradável. Suave e agradável como ela.
Ela, que com os seus olhos da cor de trovão de céu sobre a montanha, olhou por entre as nuvens e vislumbrou os seus amigos.
No silêncio que antecedeu o encantamento daqueles instantes, deambulava melifluamente pelo jardim. Pequenas gotas de orvalho deslizavam pela face, tentando abraçar o rosto guardado dentro da sua memória.
Nótus e Zéfiro não conseguiam deixar de olhar para ela e para a pequena caixa que os seus dedos finos e claros tão docemente acariciavam.
Acariciavam e recordavam as mãos dele, a sua pele, os seus lábios, o seu olhar. Aquele olhar que lembrava-lhe ainda mais os seus cabelos, o seu rosto que exprimia línguas de mares impossíveis, o seu corpo que incendiava o mundo dela.
Repentinamente, abriu a caixa e muito cuidadosamente retirou do seu interior a saudade.
Sim, a saudade. Queria plantá-la de forma a que não pudesse movimentar-se, ir ter com ela e semear no seu coração tristezas nostálgicas.
Estava decidida de que se ficasse ali plantada, não a cultivaria e assim a saudade acabaria por morrer !

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Feiticeira de Sartel

Poema Abecedário II ... neste poema comecei cada verso com uma letra do abecedário, segundo a ordem do mesmo. Mais uma vez, esqueci as letras novas !

Às voltas com o papel
Brinca com as letras
Compõe palavras
Desenha sentimentos
Entrelaça lendas e sonhos.

Feiticeira de Sartel
Galvaniza mitos e lendas
Histórias e fantasias
Irrequietas na sua harmonia.

Joga com os pensamentos
Lugarejos de ideias
Misantrópicas
Na sua alegria melancólica.

Olha o céu onde
Palácios de sonhos
Quebram docemente
Realidades sorridentes e
Soalheiras na vivência de afectos.

Tantras e tautogramas
Unidos por uma mágica poética
Vagueiam de encontro à
Xamanista Turcomana mas
Zolaísta na doce forma de amar !

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Encontros e Desencontros

Encontro-te. Sei que estou a sofrer mas não o sinto. Sei ? A liberdade trespassa o meu ser, navega pelas águas cristalinas da minha pele, completa-me. Então, porque sinto este vazio ? Porque sinto esta ausência de dor ? Diz-me amor, iludi-me ao pensar que te adorava ? Iludi-nos?
Não sei ! Apenas sei que tenho medo, muito medo de ir ao mais profundo de mim, de sentir no âmago da minha essência a libertação de um sentimento suprimido e tão racionalmente controlado. Demasiado ...
Apetece-me fugir, mas não consigo. Tudo em ti me atrai ... a ternura dos teus olhos, a protecção dos teus braços, o som das tuas palavras, o teu jeito desajeitado que tanto me enternece.
Gostava de sentir a tua dor, passar noites em claro para te amar e consolar, fingir que não percebo quando me observas e me tentas conhecer.
Sinto saudades de instantes felizes ao teu lado ... instantes que ainda me fazem sentir viva, pulsante, inconsequente.
Desencontro-me quando não te encontro, e esta é a tradução fiel do meu amor !

terça-feira, 21 de abril de 2009

Maria Eduarda Ngan

Porque vou ter que escolher ...
Maria Ngan ... Maria Eduarda Ngan ... Maria Ngan ... Maria Eduarda Ngan ...
Huuummm ... pendo mais para Maria Eduarda Ngan ! Sempre gostei muito do nome Maria Eduarda ... ;)

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Olhares

No teu olhar passam ...
Retratos de uma vida
Imagens de carinhos
Cura de uma ferida
Intrínseca aos vossos caminhos !

No meu olhar passam ...
Lindos versos de antigos romanceiros
Lendas e sonhos de mundos inteiros
Mares onde não cabem os meus desejos
Céus do Oriente cheios de lampejos.

Surreais castelos no ar
Que deixam no mar
Centelhas de incertezas
Delicadas nas suas tristezas.

domingo, 12 de abril de 2009

O ciúme corrói a alma

Chovia ininterruptamente e a noite irrompeu de forma intempestiva expulsando a tarde de sua tão curta existência neste dia sombrio !
Os pneus gritavam à medida que Tomás ía conduzindo, sem qualquer tipo de precaução, o seu potente carro pelas curvas sinuosas que o levariam até à imponente casa de férias.
Toldado pela raiva, pelo desespero, pela angústia, não lhe saía da cabeça as imagens, as explicações, as desculpas pela cena que acontecera ainda há pouco.
( ... )

domingo, 5 de abril de 2009

Alma do teu olhar

Assusta-me a essência do teu pensamento
Inebria-me a alma do teu olhar
Seduz o azul cinzento do meu mar
Encantado com a ternura de um sentimento.

Deambulo por entre a pele da tua alma
Luto pela delicadeza do sonho que me acalma
Navego pelo sabor a água dos teus beijos
Que despertam em mim primitivos desejos.

sábado, 28 de março de 2009

Por entre as cortinas

Por entre as cortinas do sofrimento
Chora a certeza da incerteza
Janela para um sentimento
Intocável na sua delicadeza.

Deambula sem senso ou sentido
Pela estrada sinuosa do tormento
Ode ao não vivido
Elogio ao quê de ternurento.

segunda-feira, 23 de março de 2009

O Amor através dos grandes Romances !

Estava um dia soalheiro de Primavera. Os primeiros raios de Sol que, espreitando por detrás da serra, despontavam timidamente e acariciavam docemente as areias brancas daquela bela praia, acordavam as águas frias do seu longo torpor.
Laura saiu cedo de casa e uma vez mais percorreu aquele longo caminho que a levaria até à Praia das Maçãs, seu refúgio, seu cantinho de alegrias e tristezas que sempre a acolhera tão bem.Enquanto conduzia, e após ter passado pela Malveira da Serra, deixou-se levar pela inebriante paisagem que nunca cansaria de amar !
Fez um breve desvio, e desceu vagarosamente até à Biscaia !Uma vez lá em baixo, subiu até ao íngreme rochedo contemplando o céu a fundir-se com o mar e o mar a unir-se com a serra, numa simbiose perfeita e sublime. O mar estava invulgarmente calmo, apenas perturbado por pequenos barcos que se avistavam no horizonte.
Laura inspirou profundamente e todas as suas preocupações, anseios e receios desvaneceram-se, completamente rendidos perante tal beleza. Beleza que a fazia esquecer tudo e todos.Olhou para o relógio e dirigiu-se para o carro. Queria chegar cedo à Praia das Maçãs para ainda dar uma volta pela praia, e então depois, dedicar o dia à escrita do seu livro !
Estacionou o carro mesmo em frente à praia . Ainda era cedo !
Cumprimentou a Dona Isaura, proprietária da pequena tabacaria, onde sempre que lá ía, comprava os jornais.
- Bom Dia, Dona Isaura !
- Bom Dia, Menina Laura ! Bons olhos a vejam ! Está tudo bem com a menina ?
- Está sim. Então e com o seu marido ?
- Está tudo bem, menina, graças a Deus !
- E o seu pai, o Dr Juvenal ?
- Sempre na mesma ... trabalho, congressos, trabalho.
- Então e a menina, está mais magrita ! Aposto que não se tem alimentado direito.
- Tenho ... apenas muito trabalho. Bem, vou indo para aproveitar um pouco da manhã. Aqui tem o dinheiro do jornal. Obrigada, Dona Isaura !
- Obrigada, menina e dê cumprimentos ao seu paizinho !
Laura desceu então para a praia, e descalçou as botas. À medida que avançava pela areia fina, olhava para o mar calmo, raro naquela praia, e finalmente relaxou do stress daqueles dias.
Tinha sido uma semana de trabalho realmente extenuante. Os prazos para a entrega dos guiões apertavam cada vez mais e a pressão que sentia era enorme. A responsabilidade que repousava sobre os seus ombros como Directora Criativa começava a sufocá-la e nem as relaxantes sessões de Yoga ao fim do dia pareciam apaziguar esse sentimento.
Para mais, a sua situação com Afonso também não ajudava nada.
Ela e Afonso conheciam-se desde sempre ! Cresceram, estudaram e até chegaram a trabalhar juntos. Sabia que ele a amava incondicionalmente, mas não conseguia corresponder totalmente a esse amor.
Estavam juntos há mais de dez anos ! Afonso era a sua alma gémea ... um Homem meigo, apaixonante, culto, viciado em obras belas, detentor de um gosto requintado, cidadão do mundo, amante da arte, literatura e música erudita. Ao lado dele, tudo parecia simples, sereno, calmo.
Mas faltava algo, e Laura encontrou esse algo nos braços de Henrique !
Languidamente, fechou os olhos e a sua mente viajou para longe, para o mundo da fantasia, do amor, do romance !
Não podemos escolher as pessoas que amamos !
Estamos sempre a querer viver um grande amor e quando finalmente nos é dada essa oportunidade, ficamos com medo de chorar, de sofrer, de verter lágrimas amargas.
Henrique fazia-a verter essas lágrimas, mas Afonso fazia brotar de seus lábios sorrisos doces.
Sabia que tinha procedido mal ao envolver-se daquela forma com Henrique, mas tinha sido inevitável. Ele tinha-se imposto na sua vida, no seu pensamento, contribuindo para o desmoronamento de todo o seu mundo afectivo e sentimental. Tinha bastado apenas um olhar ...
Numa tentativa de repor a organização do seu mundo interno, Laura acabou por aceitar o pedido de casamento de Afonso.
Simultaneamente, tentava expiar este sofrimento através do solitário ofício de imaginação da escrita. Para isso, encetou o empreendimento de escrever um livro, um romance.
Apenas sabia que queria que esse romance povoasse a sua imaginação com imagens coloridas e surreais e que através das suas palavras, a fizesse sentir parte integrante de um inebriante poema visual onde a beleza do mundo natural ocupasse um lugar destacado. Laura queria escrever um romance, cuja bela história que a levaria a imaginar e a viajar pelo mundo inteiro, a fizesse também esquecer, ainda que de forma fugaz, toda a selvajaria daquele sentimento turbulento que nutria por Henrique.
Nisto, viu uma osga a passear por entre os rochedos. Olharam-se nos olhos e Laura vislumbrou nela todo o seu passado, toda a sua felicidade. Deixou-se conduzir por ela, por aquela ténue esperança de esquecimento e recuperação de sentimentos há tanto tempo adormecidos. De uma forma arriscada, cativante e extravagante deixou-se levar pelas suas sábias palavras que a lembravam sempre da importância de mantermos a autonomia da nossa própria identidade, personalidade e nunca submetermo-nos à escravidão de entregarmos a alma a alguém que não nós próprios.
A osga conduziu-a até a um cágado velho e este, recordando-lhe o poder do amor verdadeiro, encetou com ela uma viagem pelo mundo dos sonhos. Nesse sonho, Laura imaginou-se Fermina Daza ... sim, as personagens do seu romance predilecto e, tal como elas, Laura e Afonso viveram durante 51 anos, nove meses e quatro dias, um amor incondicional, total, eterno, persistente, sem idade nem espaço físico e desafiador dos limites humanos. Amavam-se de tal forma que Afonso comia pétalas de rosa e bebia frascos de perfume de forma a sentir-se próximo da essência feminina da sua amada. Laura escrevia de tal modo apaixonante que transformava os seus guiões em cartas de amor. E, por ironia do destino, vivia num estado de permanente dualidade, iludindo o grande amor da sua alma, Afonso, com fugazes episódios de paixão carnal, Henrique.
Sim, ela sabia que a única coisa que restaria de Henrique seria uma herança do vazio. Com ele percorreria o percurso sinuoso do amor impossível, a incerteza da paixão humana, a demanda de algo inatingível . Mas não é isso que, no fundo, todos nós desejamos ?

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Ausência de Ti

Poema Abecedário ... neste poema comecei cada verso com uma letra do abecedário, segundo a ordem do mesmo. Por agora, esqueci as letras novas !

Ainda te sinto
Basta lembrar-me de ti
Cada segundo de mim
Desespera com a tua ausência.

Esqueço-me de te esquecer
Fujo de ti, para não me perder
Grito por não te ter
Hoje, amanhã e talvez nunca.

Imagino-me nos teus braços
Já nem quero despertar deste sonho
Longe de tudo e de todos
Mantemo-nos nas nossas essências
Na ilusão de iludirmo-nos.

Oculta-me a quem entregas o corpo, mas não a alma
Provoca-me, abandona-me ... mas nunca deixes de regressar.

Quebra a saudade
Rasga a incerteza
Sucumbe ao primitivo
Toca-me com subtileza
Uma única vez, uma única noite.
Volatiliza-te no meu infinito
Xauter do deserto da minha vida
Zelador da minha dor sem ti.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Alma do Café

Há um intrigante e delicioso cheiro a café no ar. De onde vem ? E qual a misteriosa história que esse odor encerra em si ?

A chuva irrompia furiosamente pela neblina, que, tímida e assustada, desaparecia sorrateiramente deixando desnudadas as belas ruas e estradas. Nestas, desabrochavam os leitores incautos que com passos miúdos mas céleres dirigiam-se apressadamente para a livraria, tendo apenas como companheiros os livros e os inseparáveis moleskines recheados de apontamentos.
Eram já quase 21h00 e esperava-os mais uma animada tertúlia literária que prolongar-se-ia noite adentro.
Chegaram à Memórias do Livro e, apesar de ser já uma situação corriqueira, nunca deixavam de ficar surpreendidos com aquele intrigante e delicioso cheiro a café no ar. A sua proveniência era um verdadeiro enigma que nem os proprietários conseguiam decifrar, até que, quando já os tertulianos preparavam-se para dar por terminada mais uma agradável sessão foram intempestivamente interrompidos pela súbita chegada de Afonso, um reputado investigador social.
De respiração ofegante e agitando nas mãos um velho manuscrito, mal conseguia falar, de tal forma o seu estado de excitação interior.
Acalmou-se após ter bebericado uma chávena de chá de limão, o seu chá predilecto, e comido uns deliciosos scones barrados com geleia.
Perante uma plateia expectante, explicou então que tinha resolvido o mistério.
Intrigado com a origem enigmática daquele odor, procedeu a várias investigações e descobriu que em tempos longínquos aquele estabelecimento havia sido um mosteiro. Os monges que nele viviam bebiam regularmente infusões de café para assim conseguirem manter-se acordados durante as rezas e os longos períodos de meditação.
Esse cheiro impregnou-se então naquelas paredes, conquistou a identidade dos seus tectos, roubou o coração daquela casa e tornou-se a sua alma. Sim, porque independentemente das dimensões, uma casa tem alma ligada a tudo o que nela se passa. E esta possui a ALMA DO CAFÉ !

domingo, 25 de janeiro de 2009

Como se não bastassem ...

Como se não bastassem os atletas das equipas adversárias a controlarem cada passo das pernas, cada movimento dos braços, cada inspirar e expirar dos pulmões e os treinadores a gritarem indicações, tácticas, esquemas e os preparadores físicos a gesticularem, a agarrarem numa panóplia de utensílios e a obrigarem à encenação de irreais espectáculos mímicos, como se não bastassem as pessoas e os seus acompanhantes, a comunicação social a preparar a memorização eterna daqueles retratos do quotidiano desportivo e os familiares a soltarem letras, palavras e frases de incentivo, como se não bastasse a pressão da competição, a necessidade de obter bons resultados, o desejo de alcançar um título nacional e eu, sem conseguir relaxar fisicamente, concentrar-me mentalmente, cada poro da pele a expulsar nervosismo e receio de falhar para a atmosfera gélida da manhã ...

Comentário ao meu texto !

No seu texto, é clara a intenção de colocar em prática o princípio primordial da poética que se traduz pelo recurso à similaridade, à semelhança e ao princípio essencial da equivalência.
O uso da fórmula regente proposta ("Como se não bastasse") vai ordenando as sequências descritivas, muitas delas mais denotativas do que conotativas e sempre suscitadas por algum - talvez previsível - intervalar narrativo. Mas tal não ensombra a qualidade do teste, pelo contrário.
Fico realmente contente, quando leio textos como o seu. Não só o segredo rítmico da poética está plenamente cumprido, como a variedade dos elementos descritivos presentes assegura àquela uma dinâmica notável e uma riqueza expressiva que tenho que sublinhar (sem estar minimamente a exagerar).
O leitor-modelo (imaginário, mas necessário para uma auto-avaliação ponderada e persistente) ficaria decerto mergulhado no microcosmos evocado e trabalhado por Lobo Antunes, recheado que está:
a) por boas sequências rítmicas ("...como se não bastasse a pressão da competição, a necessidade de obter bons resultados, o desejo de alcançar...");
b) por um certo uso intencional de aliterações ("...bastassem os atletas das equipas adversárias...");
c) pela rima subtil ("...expirar dos pulmões e os treinadores a gritarem indicações...");
d) pela musicalidade que resulta do alinhamento discursivo dos termos enunciados no seu texto ("...a gesticularem, a agarrarem numa panóplia de utensílios e a obrigarem...");
e) pelo recurso a sintagmas enquadrados por ritmos quase ternários - tão ao gosto queiroziano ("...cada passo das pernas, cada movimento dos braços, cada inspirar...");
f) pelas imagens plásticas fortes e/ou apropriadas ("...cada poro da pele..." - tendo também em conta a repetição porventura intencional).


Com muita muita (repetição intencional) estima,

Luis Carmelo.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

APAD ...

... Associação Protectora dos Artistas Desempregados !

Associação criada recentemente para fazer face ao aumento exponencial de artistas desinspirados, e consequentemente, desempregados em Portugal.
Compareça e ajude-nos a perceber esta crise de ideias e imaginação que assola o nosso país, a nossa oferta cultural.
Os tópicos de discussão são livres e moldados de acordo com as necessidades de cada um.
Tem receio de não ter ideias sobre o que há-de ser discutido ? Receia falta de imaginação para a devida abordagem ao problema ?
Pois então é para isso mesmo que cá estamos ... para tentarmos entender e possivelmente colmatar essa lacuna !
Compareça ! A sua falta de inspiração é importante !
Entrada gratuita, mas limitada a 250 seres sem imaginação.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Som do Rio que corre ...

- As ninfas harpistas tocam música no tear fluvial;

- As pedras do rio cantam sob a batuta da corrente, que ao passar por elas arrasta consigo aquelas pequenas entoações musicais;

- Rumorejar abrasivo que desliza ao ritmo ora harmonioso ora tempestuoso da corrente e que corrói os seixos do tempo.