domingo, 25 de janeiro de 2009

Como se não bastassem ...

Como se não bastassem os atletas das equipas adversárias a controlarem cada passo das pernas, cada movimento dos braços, cada inspirar e expirar dos pulmões e os treinadores a gritarem indicações, tácticas, esquemas e os preparadores físicos a gesticularem, a agarrarem numa panóplia de utensílios e a obrigarem à encenação de irreais espectáculos mímicos, como se não bastassem as pessoas e os seus acompanhantes, a comunicação social a preparar a memorização eterna daqueles retratos do quotidiano desportivo e os familiares a soltarem letras, palavras e frases de incentivo, como se não bastasse a pressão da competição, a necessidade de obter bons resultados, o desejo de alcançar um título nacional e eu, sem conseguir relaxar fisicamente, concentrar-me mentalmente, cada poro da pele a expulsar nervosismo e receio de falhar para a atmosfera gélida da manhã ...

Comentário ao meu texto !

No seu texto, é clara a intenção de colocar em prática o princípio primordial da poética que se traduz pelo recurso à similaridade, à semelhança e ao princípio essencial da equivalência.
O uso da fórmula regente proposta ("Como se não bastasse") vai ordenando as sequências descritivas, muitas delas mais denotativas do que conotativas e sempre suscitadas por algum - talvez previsível - intervalar narrativo. Mas tal não ensombra a qualidade do teste, pelo contrário.
Fico realmente contente, quando leio textos como o seu. Não só o segredo rítmico da poética está plenamente cumprido, como a variedade dos elementos descritivos presentes assegura àquela uma dinâmica notável e uma riqueza expressiva que tenho que sublinhar (sem estar minimamente a exagerar).
O leitor-modelo (imaginário, mas necessário para uma auto-avaliação ponderada e persistente) ficaria decerto mergulhado no microcosmos evocado e trabalhado por Lobo Antunes, recheado que está:
a) por boas sequências rítmicas ("...como se não bastasse a pressão da competição, a necessidade de obter bons resultados, o desejo de alcançar...");
b) por um certo uso intencional de aliterações ("...bastassem os atletas das equipas adversárias...");
c) pela rima subtil ("...expirar dos pulmões e os treinadores a gritarem indicações...");
d) pela musicalidade que resulta do alinhamento discursivo dos termos enunciados no seu texto ("...a gesticularem, a agarrarem numa panóplia de utensílios e a obrigarem...");
e) pelo recurso a sintagmas enquadrados por ritmos quase ternários - tão ao gosto queiroziano ("...cada passo das pernas, cada movimento dos braços, cada inspirar...");
f) pelas imagens plásticas fortes e/ou apropriadas ("...cada poro da pele..." - tendo também em conta a repetição porventura intencional).


Com muita muita (repetição intencional) estima,

Luis Carmelo.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

APAD ...

... Associação Protectora dos Artistas Desempregados !

Associação criada recentemente para fazer face ao aumento exponencial de artistas desinspirados, e consequentemente, desempregados em Portugal.
Compareça e ajude-nos a perceber esta crise de ideias e imaginação que assola o nosso país, a nossa oferta cultural.
Os tópicos de discussão são livres e moldados de acordo com as necessidades de cada um.
Tem receio de não ter ideias sobre o que há-de ser discutido ? Receia falta de imaginação para a devida abordagem ao problema ?
Pois então é para isso mesmo que cá estamos ... para tentarmos entender e possivelmente colmatar essa lacuna !
Compareça ! A sua falta de inspiração é importante !
Entrada gratuita, mas limitada a 250 seres sem imaginação.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Som do Rio que corre ...

- As ninfas harpistas tocam música no tear fluvial;

- As pedras do rio cantam sob a batuta da corrente, que ao passar por elas arrasta consigo aquelas pequenas entoações musicais;

- Rumorejar abrasivo que desliza ao ritmo ora harmonioso ora tempestuoso da corrente e que corrói os seixos do tempo.