segunda-feira, 23 de março de 2009

O Amor através dos grandes Romances !

Estava um dia soalheiro de Primavera. Os primeiros raios de Sol que, espreitando por detrás da serra, despontavam timidamente e acariciavam docemente as areias brancas daquela bela praia, acordavam as águas frias do seu longo torpor.
Laura saiu cedo de casa e uma vez mais percorreu aquele longo caminho que a levaria até à Praia das Maçãs, seu refúgio, seu cantinho de alegrias e tristezas que sempre a acolhera tão bem.Enquanto conduzia, e após ter passado pela Malveira da Serra, deixou-se levar pela inebriante paisagem que nunca cansaria de amar !
Fez um breve desvio, e desceu vagarosamente até à Biscaia !Uma vez lá em baixo, subiu até ao íngreme rochedo contemplando o céu a fundir-se com o mar e o mar a unir-se com a serra, numa simbiose perfeita e sublime. O mar estava invulgarmente calmo, apenas perturbado por pequenos barcos que se avistavam no horizonte.
Laura inspirou profundamente e todas as suas preocupações, anseios e receios desvaneceram-se, completamente rendidos perante tal beleza. Beleza que a fazia esquecer tudo e todos.Olhou para o relógio e dirigiu-se para o carro. Queria chegar cedo à Praia das Maçãs para ainda dar uma volta pela praia, e então depois, dedicar o dia à escrita do seu livro !
Estacionou o carro mesmo em frente à praia . Ainda era cedo !
Cumprimentou a Dona Isaura, proprietária da pequena tabacaria, onde sempre que lá ía, comprava os jornais.
- Bom Dia, Dona Isaura !
- Bom Dia, Menina Laura ! Bons olhos a vejam ! Está tudo bem com a menina ?
- Está sim. Então e com o seu marido ?
- Está tudo bem, menina, graças a Deus !
- E o seu pai, o Dr Juvenal ?
- Sempre na mesma ... trabalho, congressos, trabalho.
- Então e a menina, está mais magrita ! Aposto que não se tem alimentado direito.
- Tenho ... apenas muito trabalho. Bem, vou indo para aproveitar um pouco da manhã. Aqui tem o dinheiro do jornal. Obrigada, Dona Isaura !
- Obrigada, menina e dê cumprimentos ao seu paizinho !
Laura desceu então para a praia, e descalçou as botas. À medida que avançava pela areia fina, olhava para o mar calmo, raro naquela praia, e finalmente relaxou do stress daqueles dias.
Tinha sido uma semana de trabalho realmente extenuante. Os prazos para a entrega dos guiões apertavam cada vez mais e a pressão que sentia era enorme. A responsabilidade que repousava sobre os seus ombros como Directora Criativa começava a sufocá-la e nem as relaxantes sessões de Yoga ao fim do dia pareciam apaziguar esse sentimento.
Para mais, a sua situação com Afonso também não ajudava nada.
Ela e Afonso conheciam-se desde sempre ! Cresceram, estudaram e até chegaram a trabalhar juntos. Sabia que ele a amava incondicionalmente, mas não conseguia corresponder totalmente a esse amor.
Estavam juntos há mais de dez anos ! Afonso era a sua alma gémea ... um Homem meigo, apaixonante, culto, viciado em obras belas, detentor de um gosto requintado, cidadão do mundo, amante da arte, literatura e música erudita. Ao lado dele, tudo parecia simples, sereno, calmo.
Mas faltava algo, e Laura encontrou esse algo nos braços de Henrique !
Languidamente, fechou os olhos e a sua mente viajou para longe, para o mundo da fantasia, do amor, do romance !
Não podemos escolher as pessoas que amamos !
Estamos sempre a querer viver um grande amor e quando finalmente nos é dada essa oportunidade, ficamos com medo de chorar, de sofrer, de verter lágrimas amargas.
Henrique fazia-a verter essas lágrimas, mas Afonso fazia brotar de seus lábios sorrisos doces.
Sabia que tinha procedido mal ao envolver-se daquela forma com Henrique, mas tinha sido inevitável. Ele tinha-se imposto na sua vida, no seu pensamento, contribuindo para o desmoronamento de todo o seu mundo afectivo e sentimental. Tinha bastado apenas um olhar ...
Numa tentativa de repor a organização do seu mundo interno, Laura acabou por aceitar o pedido de casamento de Afonso.
Simultaneamente, tentava expiar este sofrimento através do solitário ofício de imaginação da escrita. Para isso, encetou o empreendimento de escrever um livro, um romance.
Apenas sabia que queria que esse romance povoasse a sua imaginação com imagens coloridas e surreais e que através das suas palavras, a fizesse sentir parte integrante de um inebriante poema visual onde a beleza do mundo natural ocupasse um lugar destacado. Laura queria escrever um romance, cuja bela história que a levaria a imaginar e a viajar pelo mundo inteiro, a fizesse também esquecer, ainda que de forma fugaz, toda a selvajaria daquele sentimento turbulento que nutria por Henrique.
Nisto, viu uma osga a passear por entre os rochedos. Olharam-se nos olhos e Laura vislumbrou nela todo o seu passado, toda a sua felicidade. Deixou-se conduzir por ela, por aquela ténue esperança de esquecimento e recuperação de sentimentos há tanto tempo adormecidos. De uma forma arriscada, cativante e extravagante deixou-se levar pelas suas sábias palavras que a lembravam sempre da importância de mantermos a autonomia da nossa própria identidade, personalidade e nunca submetermo-nos à escravidão de entregarmos a alma a alguém que não nós próprios.
A osga conduziu-a até a um cágado velho e este, recordando-lhe o poder do amor verdadeiro, encetou com ela uma viagem pelo mundo dos sonhos. Nesse sonho, Laura imaginou-se Fermina Daza ... sim, as personagens do seu romance predilecto e, tal como elas, Laura e Afonso viveram durante 51 anos, nove meses e quatro dias, um amor incondicional, total, eterno, persistente, sem idade nem espaço físico e desafiador dos limites humanos. Amavam-se de tal forma que Afonso comia pétalas de rosa e bebia frascos de perfume de forma a sentir-se próximo da essência feminina da sua amada. Laura escrevia de tal modo apaixonante que transformava os seus guiões em cartas de amor. E, por ironia do destino, vivia num estado de permanente dualidade, iludindo o grande amor da sua alma, Afonso, com fugazes episódios de paixão carnal, Henrique.
Sim, ela sabia que a única coisa que restaria de Henrique seria uma herança do vazio. Com ele percorreria o percurso sinuoso do amor impossível, a incerteza da paixão humana, a demanda de algo inatingível . Mas não é isso que, no fundo, todos nós desejamos ?

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