terça-feira, 12 de maio de 2009

Saudade

Imagine que tem um jardim - o que plantaria nele ? Use a terceira pessoa do singular !

Zéfiro e Nótus avistaram-na ao longe. De redemoinho em redemoinho, competiam alegremente entre si para ver quem chegava primeiro junto dela e brincava com os seus longos cabelos de sol.
Nótus, vento do sul, quente mas rebelde. Zéfiro, vento do oeste, suave e agradável. Suave e agradável como ela.
Ela, que com os seus olhos da cor de trovão de céu sobre a montanha, olhou por entre as nuvens e vislumbrou os seus amigos.
No silêncio que antecedeu o encantamento daqueles instantes, deambulava melifluamente pelo jardim. Pequenas gotas de orvalho deslizavam pela face, tentando abraçar o rosto guardado dentro da sua memória.
Nótus e Zéfiro não conseguiam deixar de olhar para ela e para a pequena caixa que os seus dedos finos e claros tão docemente acariciavam.
Acariciavam e recordavam as mãos dele, a sua pele, os seus lábios, o seu olhar. Aquele olhar que lembrava-lhe ainda mais os seus cabelos, o seu rosto que exprimia línguas de mares impossíveis, o seu corpo que incendiava o mundo dela.
Repentinamente, abriu a caixa e muito cuidadosamente retirou do seu interior a saudade.
Sim, a saudade. Queria plantá-la de forma a que não pudesse movimentar-se, ir ter com ela e semear no seu coração tristezas nostálgicas.
Estava decidida de que se ficasse ali plantada, não a cultivaria e assim a saudade acabaria por morrer !

Sem comentários: