domingo, 26 de dezembro de 2010

O Sol

Imagine que hoje o Sol não sai, está de greve ( talvez seja depressão ou estará em luta para não alargar o tempo até atingir a idade da reforma ... ou por qualquer outro motivo ).
Porque não brilha hoje o Sol e quais são as consequências ?

Modalidade: livre
Limite: 350 palavras

Após milhões de anos em constante guerra com Hanuman Jayanti, a Lua, um dia o Sol começou a cair. Tinha sido atraiçoado por Sirius, o rei das estrelas. Desiludido, pôs-se a pestanejar, a mover-se, a sua luz apagou-se e mal se via.
Na Terra, as pessoas começaram a esfregar o corpo, tremendo. Era o frio.
Na semiobscuridade, desacostumados, assustados, os homens desesperavam, deambulando às cegas, tropeçando. Onde estou ? Onde estão os meus parentes ?
O vento começara a soprar. Uivando, agitando-se, levava as cristas das palmeiras e arrancava pela raiz as árvores.
A chuva caía estrepitosamente, provocando inundações. Os rios mudavam de curso, os pequenos lagos viravam rios. As borboletas invadiam as casas. Ouvia-se o constante piar da coruja.
Durante a noite, o rio cresceu tanto que, ao amanhecer, estavam rodeados de águas revoltas, pejadas de paus, arbustos, tojos e cadáveres que se desfaziam ao embater nas margens. A toda a pressa cortavam madeira, improvisando jangadas e canoas antes de a inundação tragar o ilhéu em que a Terra se convertera. Tiveram de lançar-se às águas lodosas e pôr-se a remar. Remavam, remavam, remavam. Muitos afogaram-se nas correntes, quando algum tronco, submerso, invisível, rachava a jangada e arrebatava as famílias.
Também as almas perderam a sua serenidade. Ao mudarem a sua maneira de viver, perturbaram a ordem do mundo, desorientando o espírito dos que se foram. Estes, confundidos com as mudanças, erravam pelas florestas, órfãos, gemendo no vento. Por isso aconteciam, talvez, as desgraças !

sábado, 16 de outubro de 2010

Recordar-te

Recordo-te. Meigo, agarrando-me com um beijo e um abraço fechado, como se os braços contivessem neles e naquele momento uma união que sempre parecia ter sido. Fazíamos dos olhos cofres onde nos guardávamos em silêncios de amor. As nossas mãos encostadas beijavam-se e penetravam-se de tanto pertencerem uma à outra; e falavam; diziam o que as palavras adiavam, como se ficassem suspensas pela vontade de perpetuar esse encantamento que nos embebedava um do outro. Íamo-nos entregando sem dar um nome a essa entrega, como se no dia em que o fizéssemos o encantamento se quebrasse. Mas esse encantamento tinha um senão: deixava vazios - quando saía do teu abraço, ficava-me apenas a ausência dele; ficava-me apenas aquele silêncio de ti, que se perpetuava até ao dia em que voltávamos a encontrar-nos. O encantamento parecia apenas ser possível naquele dia, naquelas horas, naquele espaço, em que não era preciso dar nome às coisas que aconteciam quando nos olhávamos - pertencíamo-nos, ali, naquele momento, naquele tempo, naquele espaço; virávamos as regras do mundo e podíamos ser um do outro porque, quando acabava, afinal tudo continuava igual e o mundo lá fora persistia impávido e intocado. Parecia que havíamos reconquistado o poder da nossa magia da infância, em que o brincar ao faz-de-conta nos permitia aceder a momentos de felicidade supostos impossíveis, a realidades contornadas e esculpidas na medida dos nossos desejos. Era uma magia que permitia conciliar alegremente o querer e o não dever, o desejar e o não poder, como se precisássemos urgentemente desse espaço aconflitual para nos permitirmos sentir o que sentíamos, para nos permitirmos ser ... só que a magia tem prazos, sob pena de sermos engolidos por ela e desaparecermos do mundo real, para figurarmos em histórias intermináveis de fadas madrinhas, príncipes e princesas encantadas, mas irreais.
E o encantamento iria persistir sem a magia ? Sim, persistiu, mas foi cedendo ao tal mundo que parecia impávido, mas não era; até porque agora, sem a magia, o mundo já não era só nosso, nele já não podíamos fazer-de-conta.
E então, foste-me danto a tua ausência ...
Sabes que havia dias em que acordava e era como se uma mão de negrume se apoderasse da minha alma e era tudo negro, cá dentro ?
Faltavam-me a força, a cor, o quente, a luz.
Enclausurei-me no mundo das memórias; da vida apenas queria o silêncio total, para que aquelas não esvoaçassem para longe, onde não as pudesse tocar mais.
Já passou tanto tempo ...
A dor amansou; vais saindo de mim e o teu ir é o deixar de sentir; é já não experimentar o tumulto da pressa do coração com as letras do teu nome; vejo-te ali, mas já não somos uma ténue mistura.
Contigo foi-se também o vazio negro, o abraço de geada onde eu me dependurava, a querer enganar a solidão. Estou só, mas é uma solidão mansa, a do reencontro. Há muito que me perdera de mim e ainda está quase tudo por desvendar !

domingo, 11 de julho de 2010

Como os bambus

Como os bambus, oscilo no vento dos meus pensamentos e vislumbro devagar a tua dor, o teu medo, que ferem e explodem em mim em ausências e vazios que desertificam a alma.
Hoje depus as ilusões, não quero mais, o cansaço tomou conta de mim !
Por vezes ainda sinto saudades do tempo em que acreditava que irias entrar pela janela, com as mãos cheias de luar para mim. Mas nada mudando, este nosso desencontro embarga uma enorme tristeza: o meu olhar iria anunciar a tua dificuldade em viver de perto o amor; sei que irias chorar para dentro. E eu, a querer bailar contigo, olhos nos olhos, o coração a bater com o teu, iria chorar também e escondida, para não te entristecer ainda mais, com a desilusão que me darias.
A dor que me deixaste é a tua dor. E agora que já a embalei com a inocência do meu amor por ti, no quanto te sonhei e aos teus silêncios, leva-a contigo. Aceita o que ela te fala de ti, não a entornes, ou esvazias-te das cores que te podem preencher de quentura.
Acabou o tempo de guardar a tua dor. Toma-a para ti, talvez agora adormecida vá cedendo lugar àquela luminosidade que te fará feliz se não temeres o arrebatamento da liberdade, o encantamento.
Vou partir. Sei que me escolheste para guardiã do lugar do teu afecto, o teu lugar mais profundo, mas intocado, embora em forma de dor ... fica-me esse sussurro das recordações de ti.
Levo comigo o que sempre te dei e se multiplicou porque o vivi contigo - o amor. Sinto-me apaziguada pela dignidade de te ter oferecido , mesmo em momentos de indizível crueza, a generosidade, o despojamento, a honestidade, a inocência; são as pétalas que vou levar nas mãos, para o caminho.
Dei-te o meu melhor sem me ter empobrecido !
Parto com a brisa quente da serenidade. A raiva foi um vento veloz que se dissipou, porque te guardo no lugar do amor, o meu lugar mais límpido.
Guardarei a ternura do nosso encontro, que sei, foi para sempre. Já não sofro porque te perdi, amanheço, e vou mais plena porque te encontrei, um dia ...

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Número 13

Escolha um número e explique-o ! Fale-nos desse número como se fosse uma entidade e um ser pensante.

13. Agora sou conhecido como número 13.
Não, por favor, não fujam de mim. Como é que é possível terem-me receio se não sou mais que o fruto de uma bonita criação de amor !
Sim, sim, isso mesmo que ouviram. Ora ouçam com atenção:
Há muitos, muitos números atrás, no distante reino da Numerolândia, existia uma pintora bela e romântica de nome 3.
3 era, desde que se conhecia, apaixonada pelo guerreiro impetuoso 1, famoso pelos seus heróicos actos de bravura.
Sentindo-se ignorada pelo egocentrismo do seu amado, 3, enchendo-se de coragem, reuniu todas as suas tintas e comprou uma tela encantada.
Nesta, desenhou a sua imagem bem como a de 1. E foi então que de forma criativa e apaixonada, e seguindo as instruções do feiticeiro 7, apagou com largas pinceladas pretas o egoísmo e individualismo de 1, realçando com uma bela cor azul a sua iniciativa e pioneirismo.
Na sua imagem realçou com cores fortes o seu entusiasmo e capacidade de sedução. E foi então que os traços e linhas ganharam forma e fundiram-se num único número: o número 13, tão bem conhecido pela sua capacidade de recomeçar e encetar novos desafios !

domingo, 25 de abril de 2010

No Reino Livre das Imagens ...

"Crie três a cinco imagens que utilizará num texto ficcional ainda por escrever. A fábula pressupõe o encontro fugaz de um homem e de uma mulher numa área de serviço. Durante quatro anos, sem saberem nada um do outro, encontram-se no motel dessa área de serviço no dia 16 de cada mês impar. O esquema falha apenas cinco vezes, durante esse longo período. No final, quando a mulher do protagonista descobre que tem uma irmã (apenas do lado do pai), os amantes vêem-se subitamente numa festa familiar. A aventura parece acabar de repente, mas, um dia, a casa do casal mais feliz de Alcochete aparece desfeita em chamas (cada imagem deverá ser sucintamente descrita em não mais do que cinco a seis linhas)."


Primeira Imagem
Os segundos passaram. As horas passaram. Os minutos. Os dias. Os anos. Quatro.
Apenas o motel da área de serviço como testemunha intemporal da felicidade daqueles instantes entre um homem e uma mulher. Instantes que se repetiam todos os dias 16 de cada mês ímpar.
O pêndulo do tempo memorizou os acontecimentos posteriores: a alegria perante a descoberta de um inesperado vínculo familiar; a surpresa da festa em família, mas sobretudo a angústia do fogo a devorar aquele quadro !


Segunda Imagem
O calor insinuava-se rapidamente pelas ruas de Alcochete, demorando-se um pouco mais a envolver o motel da área de serviço.
As suas paredes frias e desarmónicas contrastavam com a alegria que emanava dos encontros fugazes entre aquele homem e aquela mulher. Durante quatro anos, sempre ao dia 16 de cada mês ímpar.
A felicidade perante a descoberta de uma irmã foi celebrada numa festa familiar cujo carácter intimista unia ainda mais os dois amantes.
A harmonia das suas expressões faciais transfigurou-se em horror perante aquele cenário em chamas !


Terceira Imagem
Durante quatro anos e sempre ao dia 16 de cada mês ímpar, o motel da área de serviço da zona de Alcochete era testemunha da felicidade que emanava dos encontros fugazes entre aquele homem e aquela mulher.
As suas paredes límpidas espelhavam a harmonia do rosto feminino e a plenitude da face masculina.
O sentimento foi reforçado com a alegria da descoberta de um inesperado parente e celebrado numa festa em família, apenas ensombrado pela cor viva das chamas que repentinamente deflagraram na casa.

... e crítica às minhas imagens !

No seu texto verifica-se que há imagens com autonomia e força própria, isto é: respiram uma voz particular e actuante e, portanto, como escrevia mais acima, acabam por falar por si (por exemplo: “O pêndulo do tempo”).

Por outro lado, a imagem implica e desperta, de modo pertinente, vários mundos. Tal acontece, quer por conotação (novos conteúdos que se atribuem a uma mesma expressão que começámos por denotar), quer por associação lógica (conteúdos que se reúnem aos presentes na figuração por ilação de cariz indutiva, dedutiva, ou abdutiva, i.e., por conjectura), quer ainda por pendor metafórico (espécie de osmose entre semas de sememas diversos). Neste último caso, de modo diferente, imagens como “O calor insinuava-se” e “cor viva das chamas” funcionam muito bem sobretudo por conjectura e conotação.

As imagens são também mecanismos ficcionais – isto é, organismos contadores de histórias.
Nesta medida, pode dizer-se que a ficcionalidade das imagens por si criadas sugere um vasto leque de percursos narrativos. E se esses percursos narrativos não são demasiamente explicitados (e ainda bem!), não deixa de ser verdade que as suas imagens os prefiguram e até cartografam (por exemplo: “paredes frias e desarmónicas” ou “transfigurou-se em horror”).

Daí que o seu texto se constitua como uma interessante peça imagética de oficina para o enredo que se iria escrever.
Um exercício muito completo, portanto.

Desejo-lhe uma óptima semana!Com toda a estima e amizade, Luís Carmelo.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O Humor como textura da narração ...

Continue a narrativa de Italo Calvino, tentando articular o seu texto com um dos condimentos de humor aristotélicos, seja oriundo da Poética ou da Retórica !

“Quando tomava banho numa praia ocorreu à Srª. Isotta Barbarino um desagradável contratempo. Nadava ela ao largo, quando, parecendo-lhe altura de regressar, e já se dirigia para a margem, se apercebeu de que um facto irremediável acontecera. Perdera o fato de banho.”
(Ítalo Calvino, Os Amores difíceis, Arcádia, Lisboa, sd/1968, p. 27).



Acometida por um súbito ataque de riso, fintou com ligeireza o desagradável contratempo. Deu mais umas braçadas enquanto pensava no que poderia ter sucedido ou se seria uma vez mais a imaginação a pregar-lhe uma partida !
Muito irrequieta andava aquela nestes últimos tempos !
Quando levantou a cabeça de forma a orientar-se, vislumbrou uns metros mais à frente um pequeno volume branco.
«O meu fato de banho», pensou.
Nadou para lá o mais rápido que conseguiu, e tendo lá chegado, agarrou logo no dito volume.
Mas se logo o agarrou, no mesmo instante o largou.
Era uma alforreca !
Resignada à sua mais recente condição de 'mulher que perdeu o fato de banho enquanto nadava', decidiu-se a ir para a praia e pedir ajuda a um dos muitos veraneantes que por lá andavam.
Talvez alguém lhe pudesse emprestar uma toalha ou algo que a cobrisse, pelo menos até chegar a casa, não muito longe dali.
À medida que ía nadando para a margem, apercebeu-se da presença de uma rapariga que também nadava na sua direcção.
Quando chegou perto dela reconheceu que trazia consigo o seu fato de banho.
À pergunta de como o tinha encontrado respondeu-lhe que tinha sido uma linda sereia envolta num belo vestido de espuma do mar a pedir-lhe para entregar aquele presente.
Da mesma forma como apareceu, desapareceu, não sem antes ter sorrido de forma enigmática para a Sra Isotta Barbarino.
Esta, ainda perplexa com o sucedido, vestiu o fato de banho, saiu da água e dirigiu-se para o pequeno bar de praia.
«Deseja tomar alguma coisa?», perguntou a empregada.
«Precauções», disse.
«Perdão? Não entendi», respondeu a rapariga.
«Nada», disse ela, sorrindo sem querer sorrir. «Estava a pensar noutra coisa. Pode trazer-me um sumo de laranja com gelo?»

... e crítica ao meu texto !

" ( ... )
Devo referir, a terminar, que o seu exercício denota uma interiorização bastante plena e criativa do já distante legado aristotélico sobre o humor. Para além disso, a rescrita de Calvino foi particularmente versátil. E flexível. Uma boa moldagem.
O universo do risível e os seus impactos constituem um projecto sem fim. Mas a incorporar sempre, sem excepção, em todo o tipo de textos.
Desejo-lhe mais uma boa semana!
Com toda a estima e amizade, Luís Carmelo."

quarta-feira, 31 de março de 2010

P de Pausa

Pausa de mim. Pausa de ti. Stop de nós !
Pausa nos silêncios. Pausa nos segredos. Stop nas palavras gastas !
Pausa nas cores que ilustram o teu sorriso. Pausa nas frases que receitam o teu olhar. Stop nas gramas do teu arco-íris e nos decilitros do teu aconchego !
Pausa no entardecer das tuas sílabas. Pausa na minha falta para despontar a aurora. Stop no anoitecer do poema que nos amanhecia !
Pausa nos mares da ansiedade. Pausa nas montanhas dos medos. Stop nos vales das decepções !
Pausa neste amor profano. Pausa neste amor transgressor. Stop neste amor de deuses, viajante por ares e mares, e terras e rios, e desertos e florestas !
Por fim ...
Pausa nas minhas tonturas caligráficas. Pausa nas linhas sinuosas que pautam este texto. Stop na tinta preta que me sai da alma !

segunda-feira, 29 de março de 2010

M de Memória

Escrevo pela ausência de sentimento em mim mesma e tomo nota da tua.
Enquanto decorre este permanente estado de sítio declaro auto-calamidade emocional.
Apesar de tudo, a memória continua a querer perseguir instantes que já morreram.
E é essa perseguição, esse prolongado choro de dor, essa dor resvalante que mói, mói, macera, repisa e atormenta.
Sei que de uma forma ou de outra, todos somos caídos, mercê de desgostos, lamentos, mentiras, perigos, traições. Há quem consiga fugir, na vã tentativa de escapar à já referida perseguição de dolorosas lembranças, há. Outras, não o conseguem, não. Porém, ambas as decisões são ociosas: nada resolvem: estou a aprender que a memória é um juiz inclemente !

domingo, 28 de março de 2010

A Morte de Atla ...

“No dia em que Atla morreu, Os homens juntaram-se na taberna diante do porto velho. Enquanto atiravam aguardente para as gargantas e olhavam as gaivotas com a persistente angústia que amofina os pescadores quando estão presos em terra, recordaram que Atla, enquanto viva, era a mais bonita mulher que jamais tinham visto, ali ou em qualquer outra parte do mundo. Dois ou três suspiraram profundamente, como se a estivessem vendo tal como ela era nos seus dias de mais espantosa beleza, quando trazia soltos os caracóis do cabelo e o sol lhe incidia no rosto moreno. Um deles derramou no chão algumas gotas do bagaço. Um outro disfarçou a lágrima que tinha no canto de um olho.
— O raio do cisco!
Algumas portas adiante da taberna, as mulheres também se juntaram para comentar o óbito. Recordavam-se perfeitamente da raiva que tinham a Atla, da inveja que sentiam quando os homens a miravam ao chegarem do mar, do ódio que reprimiam quando, à noite, adormecidos nos leitos conjugais, eles invocavam o nome dela nos sonhos mais mansos. Mas, estando Atla morta, as mulheres não lhe chamaram puta, desta vez. Não escarraram para o chão quando escutaram o nome dela. Persignaram-se.
— Que descanse em paz.
— E que Deus lhe perdoe.”

(Manuel Jorge Marmelo, Aonde o vento me levar, Campo das Letras, Porto, 2007, p.7)

... que não chegou nunca a morrer ...

"Imagine que Atla não chegou nunca a morrer, apesar de o início o romance começar justamente por narrar a sua morte. Escreva a parte do enredo que daria alegadamente conta da reacção dos personagens ao terem conhecimento de uma tal notícia ( não ultrapassar 20 linhas )."

Foi novamente numa daquelas tardes preguiçosas de Outubro, que o espanto tomou conta do espírito dos homens que bebericavam na taberna diante do porto velho.
Já não mais pensavam na morte da bela Atla, quando Joaquim irrompeu intempestivamente, gritando que tinha acabado de cruzar-se com a defunta. Uma onda de assombro e dúvida passou pelas cabeças dos pescadores, ao mesmo tempo que assaltavam com perguntas e mais perguntas o mestre.
- Era mesmo ela ? Não seria alguém muito parecido ? Como é que tal aconteceu ?
Esclarecidas as questões e confusões e acalmados os ânimos, foi unânime o sentimento de alegria perante a possibilidade de voltarem a contactar com o encanto e expressividade únicos de Atla.
Já o mesmo regozijo não se pode dizer que tenha encontrado abrigo algumas portas adiante da taberna.
Aqui, o espanto inicial cedeu lugar a uma ira incrédula.
Tentando controlar o ódio que sentiam, as mulheres não conseguiam esconder a raiva associada à frustração dos seus intentos !
- Como é possível que ela tenha sobrevivido ? Será que trocaste as doses ?
Eram estas as dúvidas mais ouvidas.
Por entre mútuas acusações crescia o sentimento de animosidade para com Atla, mulher vaidosa e caprichosa e que, segundo as próprias, sorrateiramente intrometia-se nos leitos conjugais, tendo como testemunha o mar a luar-se por sinfonias de prata.

... e crítica ao meu enredo !

" Olá, muito boa noite!
Começo por lhe dizer que o seu texto tem um ritmo narrativo interessante e está escrito de modo apelativo. Gostei sinceramente.

Este exercício abordava a “perlocução”. O termo designa a rede de impactos que é motivada por um súbito e novo dado que entra em cena num espaço comunicacional considerado.

Há, nestes casos, três perspectivas distintas que um texto pode – melhor ou pior – optimizar: a perspectiva retrospectiva, a perspectiva prospectiva e a perspectiva que religa, a todo o momento, o ‘dito’ e o ‘não dito’.

Levemos a cabo uma breve visita guiada a cada um destes três olhares que centram e recentram, de forma ininterrupta, a articulação das sequências que se vão concatenando na narrativa. Em cada caso, veremos como é que o seu texto se comportou:

a) Visão retrospectiva:
Nesta perspectiva, pressupõe-se que cada linha que se escreve tem sempre implicações sobre o ‘já dito’. Isto significa que aquilo que parece ter ficado definido algures na narrativa pode (e deve), a todo o momento, alterar-se na imaginação do leitor.
No caso do seu texto, o excerto “…quando Joaquim irrompeu intempestivamente, gritando que tinha acabado de cruzar-se com a defunta…” introduz a metáfora da transformação inexplicável e, portanto, reconduz com alguma doçura o leitor a maleabilizar o que já havia organizado na sua mente.

b) Visão prospectiva:Nesta perspectiva, sugere-se que a estratégia ficcional desenvolvida não deverá ser inocente face às sequências (futuras) com que o leitor ainda se irá confrontar. Ou seja, de que modo é que o texto do presente exercício responde à seguinte questão: Como é que a nova sequência pode dissimular e afectar a natureza da(s) sequência(s) que a segue(m)?
Neste caso, creio que o relato se torna operativo. Veja-se: “…crescia o sentimento de animosidade para com Atla, mulher vaidosa e caprichosa e que, segundo as próprias, sorrateiramente intrometia-se nos leitos conjugais…”. Esta visão abre, de facto, caminho a ‘N’ possibilidades nas sequências futuras da narração. Embora o leque de atributos utilizados marque com ênfase o presente, sobretudo os que incidem no corpo e no imaginário (mas não menos tácito) de ‘deleite’ dos homens, a verdade é que o futuro se semeia, neste registo, dando ao leitor a visão prospectiva de uma complicação galopante.

c) A eficácia do ‘não dito’ e a desmontagem de sequências:
Não o esqueçamos nunca: o tema deste exercício alicerça-se numa “decepção de perspectivas” que corresponde (àquilo que acontece) à inferência do leitor – “Afinal Atla não morreu!”.
Este terceiro olhar alerta-nos para o facto de existirem aspectos que o leitor escusa/escusaria, para já, de ficar saber. Exemplos: (1) a imagem descritiva do corpo de Atla deverá estar omissa e ser veiculada ao leitor apenas através da narração/descrição dos impactos que ele tem/teve nos homens e na imaginação das suas mulheres (o que está muito bem conseguido no seu texto). (2) Dar a entender que Atla reapareceu sem nunca de facto o admitir a cem por cento, fazendo com que o agir do/a(s) personagens reflectisse a ‘verdade’ vs. ‘não verdade’ desse dado diante do leitor (dado que, ao longo de todo o texto, é cabalmente realizado; exemplo: “Uma onda de assombro e dúvida passou pelas cabeças os pescadores, ao mesmo tempo que assaltavam com perguntas e mais perguntas o mestre./ - Era mesmo ela ? Não seria alguém muito parecido ? Como é que tal aconteceu ?”).

Em jeito de conclusão final, diria que o seu exercício está realmente bem encadeado e articulado.

Com toda a estima e amizade, Luís Carmelo."

terça-feira, 23 de março de 2010

Nocturna

Neste momento, a realidade afigura-se-me dolorosa e imperfeita.
Sinto-me como a fase escondida da Lua ... fase de estar sozinha, fase de não me encontrar com ninguém.
Triste por saber que no dia de alguém ser meu não é dia de eu ser sua, e, quando chegar esse dia, o outro desapareceu ...
Bebo a minha própria tristeza e como que me inebrio com ela.
Apetece-me cair com o entardecer. Deixar o corpo desaguar na noite, limpo. Nada de anseios ou duplicidade de pensamentos e sentimentos. Somente silêncio bom à minha espera. Gosto desse silêncio, absoluto, puro. É-me imperioso possuí-lo.
Talvez transformando-me no minuto que acende a noite consiga ver melhor. Será ? Serei então capaz de vislumbrar geograficamente a minha localização sentimental ? Parece-me que estou a vê-la longe, longe, rodeada de montanhas. Montanhas fustigadas pela tempestade e pelo frio que acizentam a minha alma e pelo vento que desorienta os meus passos.
Vento. Vento que sopra só para mim. Vento doce da loucura que me invade lentamente e me deixa à mercê dos seus dedos de nuvem, tão suaves e meigos.

sábado, 13 de março de 2010

Trela

"Desenvolva a fábula a partir do curtíssimo enredo criado por Thomas Bernhard ( "... um rapaz levou o cão a passear ... com a trela. Depois quis subir a qualquer lado, puxou infelizmente a trela por cima da cabeça, o cão continuou provavelmente a correr mais três passadas e o rapaz ficou estrangulado" )."

Frederico relaxou no sofá do consultório da Drª Ana. O som hipnotizante das suas palavras transportou-o para um universo onde finalmente uma sensação de calma fria trespassou por completo o seu ser. Necessitava de compreender o significado daquele sonho que constantemente perseguia-o e atormentava-o nos últimos meses.
Através de uma sábia indução viu-se então 'novamente' a levar o seu cão a passear ... com a trela. Depois quis subir a qualquer lado, puxou infelizmente a trela por cima da cabeça, o cão continuou provavelmente a correr mais três passadas e o rapaz ficou estrangulado.
Trela. Analisando em conjunto com a Drª Ana, foi-lhe impossível negar que sentia-se preso a um sentimento de falsa segurança. E foi quando desejou algo mais para a sua insípida existência que não conseguiu acompanhar o ritmo corajoso, mas doloroso inerente à mudança e deixou-se sufocar pela dor, quase como se estivesse a ser estrangulado. Estrangulado pela falta de coragem para viver !