quarta-feira, 31 de março de 2010

P de Pausa

Pausa de mim. Pausa de ti. Stop de nós !
Pausa nos silêncios. Pausa nos segredos. Stop nas palavras gastas !
Pausa nas cores que ilustram o teu sorriso. Pausa nas frases que receitam o teu olhar. Stop nas gramas do teu arco-íris e nos decilitros do teu aconchego !
Pausa no entardecer das tuas sílabas. Pausa na minha falta para despontar a aurora. Stop no anoitecer do poema que nos amanhecia !
Pausa nos mares da ansiedade. Pausa nas montanhas dos medos. Stop nos vales das decepções !
Pausa neste amor profano. Pausa neste amor transgressor. Stop neste amor de deuses, viajante por ares e mares, e terras e rios, e desertos e florestas !
Por fim ...
Pausa nas minhas tonturas caligráficas. Pausa nas linhas sinuosas que pautam este texto. Stop na tinta preta que me sai da alma !

segunda-feira, 29 de março de 2010

M de Memória

Escrevo pela ausência de sentimento em mim mesma e tomo nota da tua.
Enquanto decorre este permanente estado de sítio declaro auto-calamidade emocional.
Apesar de tudo, a memória continua a querer perseguir instantes que já morreram.
E é essa perseguição, esse prolongado choro de dor, essa dor resvalante que mói, mói, macera, repisa e atormenta.
Sei que de uma forma ou de outra, todos somos caídos, mercê de desgostos, lamentos, mentiras, perigos, traições. Há quem consiga fugir, na vã tentativa de escapar à já referida perseguição de dolorosas lembranças, há. Outras, não o conseguem, não. Porém, ambas as decisões são ociosas: nada resolvem: estou a aprender que a memória é um juiz inclemente !

domingo, 28 de março de 2010

A Morte de Atla ...

“No dia em que Atla morreu, Os homens juntaram-se na taberna diante do porto velho. Enquanto atiravam aguardente para as gargantas e olhavam as gaivotas com a persistente angústia que amofina os pescadores quando estão presos em terra, recordaram que Atla, enquanto viva, era a mais bonita mulher que jamais tinham visto, ali ou em qualquer outra parte do mundo. Dois ou três suspiraram profundamente, como se a estivessem vendo tal como ela era nos seus dias de mais espantosa beleza, quando trazia soltos os caracóis do cabelo e o sol lhe incidia no rosto moreno. Um deles derramou no chão algumas gotas do bagaço. Um outro disfarçou a lágrima que tinha no canto de um olho.
— O raio do cisco!
Algumas portas adiante da taberna, as mulheres também se juntaram para comentar o óbito. Recordavam-se perfeitamente da raiva que tinham a Atla, da inveja que sentiam quando os homens a miravam ao chegarem do mar, do ódio que reprimiam quando, à noite, adormecidos nos leitos conjugais, eles invocavam o nome dela nos sonhos mais mansos. Mas, estando Atla morta, as mulheres não lhe chamaram puta, desta vez. Não escarraram para o chão quando escutaram o nome dela. Persignaram-se.
— Que descanse em paz.
— E que Deus lhe perdoe.”

(Manuel Jorge Marmelo, Aonde o vento me levar, Campo das Letras, Porto, 2007, p.7)

... que não chegou nunca a morrer ...

"Imagine que Atla não chegou nunca a morrer, apesar de o início o romance começar justamente por narrar a sua morte. Escreva a parte do enredo que daria alegadamente conta da reacção dos personagens ao terem conhecimento de uma tal notícia ( não ultrapassar 20 linhas )."

Foi novamente numa daquelas tardes preguiçosas de Outubro, que o espanto tomou conta do espírito dos homens que bebericavam na taberna diante do porto velho.
Já não mais pensavam na morte da bela Atla, quando Joaquim irrompeu intempestivamente, gritando que tinha acabado de cruzar-se com a defunta. Uma onda de assombro e dúvida passou pelas cabeças dos pescadores, ao mesmo tempo que assaltavam com perguntas e mais perguntas o mestre.
- Era mesmo ela ? Não seria alguém muito parecido ? Como é que tal aconteceu ?
Esclarecidas as questões e confusões e acalmados os ânimos, foi unânime o sentimento de alegria perante a possibilidade de voltarem a contactar com o encanto e expressividade únicos de Atla.
Já o mesmo regozijo não se pode dizer que tenha encontrado abrigo algumas portas adiante da taberna.
Aqui, o espanto inicial cedeu lugar a uma ira incrédula.
Tentando controlar o ódio que sentiam, as mulheres não conseguiam esconder a raiva associada à frustração dos seus intentos !
- Como é possível que ela tenha sobrevivido ? Será que trocaste as doses ?
Eram estas as dúvidas mais ouvidas.
Por entre mútuas acusações crescia o sentimento de animosidade para com Atla, mulher vaidosa e caprichosa e que, segundo as próprias, sorrateiramente intrometia-se nos leitos conjugais, tendo como testemunha o mar a luar-se por sinfonias de prata.

... e crítica ao meu enredo !

" Olá, muito boa noite!
Começo por lhe dizer que o seu texto tem um ritmo narrativo interessante e está escrito de modo apelativo. Gostei sinceramente.

Este exercício abordava a “perlocução”. O termo designa a rede de impactos que é motivada por um súbito e novo dado que entra em cena num espaço comunicacional considerado.

Há, nestes casos, três perspectivas distintas que um texto pode – melhor ou pior – optimizar: a perspectiva retrospectiva, a perspectiva prospectiva e a perspectiva que religa, a todo o momento, o ‘dito’ e o ‘não dito’.

Levemos a cabo uma breve visita guiada a cada um destes três olhares que centram e recentram, de forma ininterrupta, a articulação das sequências que se vão concatenando na narrativa. Em cada caso, veremos como é que o seu texto se comportou:

a) Visão retrospectiva:
Nesta perspectiva, pressupõe-se que cada linha que se escreve tem sempre implicações sobre o ‘já dito’. Isto significa que aquilo que parece ter ficado definido algures na narrativa pode (e deve), a todo o momento, alterar-se na imaginação do leitor.
No caso do seu texto, o excerto “…quando Joaquim irrompeu intempestivamente, gritando que tinha acabado de cruzar-se com a defunta…” introduz a metáfora da transformação inexplicável e, portanto, reconduz com alguma doçura o leitor a maleabilizar o que já havia organizado na sua mente.

b) Visão prospectiva:Nesta perspectiva, sugere-se que a estratégia ficcional desenvolvida não deverá ser inocente face às sequências (futuras) com que o leitor ainda se irá confrontar. Ou seja, de que modo é que o texto do presente exercício responde à seguinte questão: Como é que a nova sequência pode dissimular e afectar a natureza da(s) sequência(s) que a segue(m)?
Neste caso, creio que o relato se torna operativo. Veja-se: “…crescia o sentimento de animosidade para com Atla, mulher vaidosa e caprichosa e que, segundo as próprias, sorrateiramente intrometia-se nos leitos conjugais…”. Esta visão abre, de facto, caminho a ‘N’ possibilidades nas sequências futuras da narração. Embora o leque de atributos utilizados marque com ênfase o presente, sobretudo os que incidem no corpo e no imaginário (mas não menos tácito) de ‘deleite’ dos homens, a verdade é que o futuro se semeia, neste registo, dando ao leitor a visão prospectiva de uma complicação galopante.

c) A eficácia do ‘não dito’ e a desmontagem de sequências:
Não o esqueçamos nunca: o tema deste exercício alicerça-se numa “decepção de perspectivas” que corresponde (àquilo que acontece) à inferência do leitor – “Afinal Atla não morreu!”.
Este terceiro olhar alerta-nos para o facto de existirem aspectos que o leitor escusa/escusaria, para já, de ficar saber. Exemplos: (1) a imagem descritiva do corpo de Atla deverá estar omissa e ser veiculada ao leitor apenas através da narração/descrição dos impactos que ele tem/teve nos homens e na imaginação das suas mulheres (o que está muito bem conseguido no seu texto). (2) Dar a entender que Atla reapareceu sem nunca de facto o admitir a cem por cento, fazendo com que o agir do/a(s) personagens reflectisse a ‘verdade’ vs. ‘não verdade’ desse dado diante do leitor (dado que, ao longo de todo o texto, é cabalmente realizado; exemplo: “Uma onda de assombro e dúvida passou pelas cabeças os pescadores, ao mesmo tempo que assaltavam com perguntas e mais perguntas o mestre./ - Era mesmo ela ? Não seria alguém muito parecido ? Como é que tal aconteceu ?”).

Em jeito de conclusão final, diria que o seu exercício está realmente bem encadeado e articulado.

Com toda a estima e amizade, Luís Carmelo."

terça-feira, 23 de março de 2010

Nocturna

Neste momento, a realidade afigura-se-me dolorosa e imperfeita.
Sinto-me como a fase escondida da Lua ... fase de estar sozinha, fase de não me encontrar com ninguém.
Triste por saber que no dia de alguém ser meu não é dia de eu ser sua, e, quando chegar esse dia, o outro desapareceu ...
Bebo a minha própria tristeza e como que me inebrio com ela.
Apetece-me cair com o entardecer. Deixar o corpo desaguar na noite, limpo. Nada de anseios ou duplicidade de pensamentos e sentimentos. Somente silêncio bom à minha espera. Gosto desse silêncio, absoluto, puro. É-me imperioso possuí-lo.
Talvez transformando-me no minuto que acende a noite consiga ver melhor. Será ? Serei então capaz de vislumbrar geograficamente a minha localização sentimental ? Parece-me que estou a vê-la longe, longe, rodeada de montanhas. Montanhas fustigadas pela tempestade e pelo frio que acizentam a minha alma e pelo vento que desorienta os meus passos.
Vento. Vento que sopra só para mim. Vento doce da loucura que me invade lentamente e me deixa à mercê dos seus dedos de nuvem, tão suaves e meigos.

sábado, 13 de março de 2010

Trela

"Desenvolva a fábula a partir do curtíssimo enredo criado por Thomas Bernhard ( "... um rapaz levou o cão a passear ... com a trela. Depois quis subir a qualquer lado, puxou infelizmente a trela por cima da cabeça, o cão continuou provavelmente a correr mais três passadas e o rapaz ficou estrangulado" )."

Frederico relaxou no sofá do consultório da Drª Ana. O som hipnotizante das suas palavras transportou-o para um universo onde finalmente uma sensação de calma fria trespassou por completo o seu ser. Necessitava de compreender o significado daquele sonho que constantemente perseguia-o e atormentava-o nos últimos meses.
Através de uma sábia indução viu-se então 'novamente' a levar o seu cão a passear ... com a trela. Depois quis subir a qualquer lado, puxou infelizmente a trela por cima da cabeça, o cão continuou provavelmente a correr mais três passadas e o rapaz ficou estrangulado.
Trela. Analisando em conjunto com a Drª Ana, foi-lhe impossível negar que sentia-se preso a um sentimento de falsa segurança. E foi quando desejou algo mais para a sua insípida existência que não conseguiu acompanhar o ritmo corajoso, mas doloroso inerente à mudança e deixou-se sufocar pela dor, quase como se estivesse a ser estrangulado. Estrangulado pela falta de coragem para viver !