domingo, 28 de março de 2010

... e crítica ao meu enredo !

" Olá, muito boa noite!
Começo por lhe dizer que o seu texto tem um ritmo narrativo interessante e está escrito de modo apelativo. Gostei sinceramente.

Este exercício abordava a “perlocução”. O termo designa a rede de impactos que é motivada por um súbito e novo dado que entra em cena num espaço comunicacional considerado.

Há, nestes casos, três perspectivas distintas que um texto pode – melhor ou pior – optimizar: a perspectiva retrospectiva, a perspectiva prospectiva e a perspectiva que religa, a todo o momento, o ‘dito’ e o ‘não dito’.

Levemos a cabo uma breve visita guiada a cada um destes três olhares que centram e recentram, de forma ininterrupta, a articulação das sequências que se vão concatenando na narrativa. Em cada caso, veremos como é que o seu texto se comportou:

a) Visão retrospectiva:
Nesta perspectiva, pressupõe-se que cada linha que se escreve tem sempre implicações sobre o ‘já dito’. Isto significa que aquilo que parece ter ficado definido algures na narrativa pode (e deve), a todo o momento, alterar-se na imaginação do leitor.
No caso do seu texto, o excerto “…quando Joaquim irrompeu intempestivamente, gritando que tinha acabado de cruzar-se com a defunta…” introduz a metáfora da transformação inexplicável e, portanto, reconduz com alguma doçura o leitor a maleabilizar o que já havia organizado na sua mente.

b) Visão prospectiva:Nesta perspectiva, sugere-se que a estratégia ficcional desenvolvida não deverá ser inocente face às sequências (futuras) com que o leitor ainda se irá confrontar. Ou seja, de que modo é que o texto do presente exercício responde à seguinte questão: Como é que a nova sequência pode dissimular e afectar a natureza da(s) sequência(s) que a segue(m)?
Neste caso, creio que o relato se torna operativo. Veja-se: “…crescia o sentimento de animosidade para com Atla, mulher vaidosa e caprichosa e que, segundo as próprias, sorrateiramente intrometia-se nos leitos conjugais…”. Esta visão abre, de facto, caminho a ‘N’ possibilidades nas sequências futuras da narração. Embora o leque de atributos utilizados marque com ênfase o presente, sobretudo os que incidem no corpo e no imaginário (mas não menos tácito) de ‘deleite’ dos homens, a verdade é que o futuro se semeia, neste registo, dando ao leitor a visão prospectiva de uma complicação galopante.

c) A eficácia do ‘não dito’ e a desmontagem de sequências:
Não o esqueçamos nunca: o tema deste exercício alicerça-se numa “decepção de perspectivas” que corresponde (àquilo que acontece) à inferência do leitor – “Afinal Atla não morreu!”.
Este terceiro olhar alerta-nos para o facto de existirem aspectos que o leitor escusa/escusaria, para já, de ficar saber. Exemplos: (1) a imagem descritiva do corpo de Atla deverá estar omissa e ser veiculada ao leitor apenas através da narração/descrição dos impactos que ele tem/teve nos homens e na imaginação das suas mulheres (o que está muito bem conseguido no seu texto). (2) Dar a entender que Atla reapareceu sem nunca de facto o admitir a cem por cento, fazendo com que o agir do/a(s) personagens reflectisse a ‘verdade’ vs. ‘não verdade’ desse dado diante do leitor (dado que, ao longo de todo o texto, é cabalmente realizado; exemplo: “Uma onda de assombro e dúvida passou pelas cabeças os pescadores, ao mesmo tempo que assaltavam com perguntas e mais perguntas o mestre./ - Era mesmo ela ? Não seria alguém muito parecido ? Como é que tal aconteceu ?”).

Em jeito de conclusão final, diria que o seu exercício está realmente bem encadeado e articulado.

Com toda a estima e amizade, Luís Carmelo."

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