domingo, 28 de março de 2010

A Morte de Atla ...

“No dia em que Atla morreu, Os homens juntaram-se na taberna diante do porto velho. Enquanto atiravam aguardente para as gargantas e olhavam as gaivotas com a persistente angústia que amofina os pescadores quando estão presos em terra, recordaram que Atla, enquanto viva, era a mais bonita mulher que jamais tinham visto, ali ou em qualquer outra parte do mundo. Dois ou três suspiraram profundamente, como se a estivessem vendo tal como ela era nos seus dias de mais espantosa beleza, quando trazia soltos os caracóis do cabelo e o sol lhe incidia no rosto moreno. Um deles derramou no chão algumas gotas do bagaço. Um outro disfarçou a lágrima que tinha no canto de um olho.
— O raio do cisco!
Algumas portas adiante da taberna, as mulheres também se juntaram para comentar o óbito. Recordavam-se perfeitamente da raiva que tinham a Atla, da inveja que sentiam quando os homens a miravam ao chegarem do mar, do ódio que reprimiam quando, à noite, adormecidos nos leitos conjugais, eles invocavam o nome dela nos sonhos mais mansos. Mas, estando Atla morta, as mulheres não lhe chamaram puta, desta vez. Não escarraram para o chão quando escutaram o nome dela. Persignaram-se.
— Que descanse em paz.
— E que Deus lhe perdoe.”

(Manuel Jorge Marmelo, Aonde o vento me levar, Campo das Letras, Porto, 2007, p.7)

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