domingo, 25 de abril de 2010

No Reino Livre das Imagens ...

"Crie três a cinco imagens que utilizará num texto ficcional ainda por escrever. A fábula pressupõe o encontro fugaz de um homem e de uma mulher numa área de serviço. Durante quatro anos, sem saberem nada um do outro, encontram-se no motel dessa área de serviço no dia 16 de cada mês impar. O esquema falha apenas cinco vezes, durante esse longo período. No final, quando a mulher do protagonista descobre que tem uma irmã (apenas do lado do pai), os amantes vêem-se subitamente numa festa familiar. A aventura parece acabar de repente, mas, um dia, a casa do casal mais feliz de Alcochete aparece desfeita em chamas (cada imagem deverá ser sucintamente descrita em não mais do que cinco a seis linhas)."


Primeira Imagem
Os segundos passaram. As horas passaram. Os minutos. Os dias. Os anos. Quatro.
Apenas o motel da área de serviço como testemunha intemporal da felicidade daqueles instantes entre um homem e uma mulher. Instantes que se repetiam todos os dias 16 de cada mês ímpar.
O pêndulo do tempo memorizou os acontecimentos posteriores: a alegria perante a descoberta de um inesperado vínculo familiar; a surpresa da festa em família, mas sobretudo a angústia do fogo a devorar aquele quadro !


Segunda Imagem
O calor insinuava-se rapidamente pelas ruas de Alcochete, demorando-se um pouco mais a envolver o motel da área de serviço.
As suas paredes frias e desarmónicas contrastavam com a alegria que emanava dos encontros fugazes entre aquele homem e aquela mulher. Durante quatro anos, sempre ao dia 16 de cada mês ímpar.
A felicidade perante a descoberta de uma irmã foi celebrada numa festa familiar cujo carácter intimista unia ainda mais os dois amantes.
A harmonia das suas expressões faciais transfigurou-se em horror perante aquele cenário em chamas !


Terceira Imagem
Durante quatro anos e sempre ao dia 16 de cada mês ímpar, o motel da área de serviço da zona de Alcochete era testemunha da felicidade que emanava dos encontros fugazes entre aquele homem e aquela mulher.
As suas paredes límpidas espelhavam a harmonia do rosto feminino e a plenitude da face masculina.
O sentimento foi reforçado com a alegria da descoberta de um inesperado parente e celebrado numa festa em família, apenas ensombrado pela cor viva das chamas que repentinamente deflagraram na casa.

... e crítica às minhas imagens !

No seu texto verifica-se que há imagens com autonomia e força própria, isto é: respiram uma voz particular e actuante e, portanto, como escrevia mais acima, acabam por falar por si (por exemplo: “O pêndulo do tempo”).

Por outro lado, a imagem implica e desperta, de modo pertinente, vários mundos. Tal acontece, quer por conotação (novos conteúdos que se atribuem a uma mesma expressão que começámos por denotar), quer por associação lógica (conteúdos que se reúnem aos presentes na figuração por ilação de cariz indutiva, dedutiva, ou abdutiva, i.e., por conjectura), quer ainda por pendor metafórico (espécie de osmose entre semas de sememas diversos). Neste último caso, de modo diferente, imagens como “O calor insinuava-se” e “cor viva das chamas” funcionam muito bem sobretudo por conjectura e conotação.

As imagens são também mecanismos ficcionais – isto é, organismos contadores de histórias.
Nesta medida, pode dizer-se que a ficcionalidade das imagens por si criadas sugere um vasto leque de percursos narrativos. E se esses percursos narrativos não são demasiamente explicitados (e ainda bem!), não deixa de ser verdade que as suas imagens os prefiguram e até cartografam (por exemplo: “paredes frias e desarmónicas” ou “transfigurou-se em horror”).

Daí que o seu texto se constitua como uma interessante peça imagética de oficina para o enredo que se iria escrever.
Um exercício muito completo, portanto.

Desejo-lhe uma óptima semana!Com toda a estima e amizade, Luís Carmelo.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O Humor como textura da narração ...

Continue a narrativa de Italo Calvino, tentando articular o seu texto com um dos condimentos de humor aristotélicos, seja oriundo da Poética ou da Retórica !

“Quando tomava banho numa praia ocorreu à Srª. Isotta Barbarino um desagradável contratempo. Nadava ela ao largo, quando, parecendo-lhe altura de regressar, e já se dirigia para a margem, se apercebeu de que um facto irremediável acontecera. Perdera o fato de banho.”
(Ítalo Calvino, Os Amores difíceis, Arcádia, Lisboa, sd/1968, p. 27).



Acometida por um súbito ataque de riso, fintou com ligeireza o desagradável contratempo. Deu mais umas braçadas enquanto pensava no que poderia ter sucedido ou se seria uma vez mais a imaginação a pregar-lhe uma partida !
Muito irrequieta andava aquela nestes últimos tempos !
Quando levantou a cabeça de forma a orientar-se, vislumbrou uns metros mais à frente um pequeno volume branco.
«O meu fato de banho», pensou.
Nadou para lá o mais rápido que conseguiu, e tendo lá chegado, agarrou logo no dito volume.
Mas se logo o agarrou, no mesmo instante o largou.
Era uma alforreca !
Resignada à sua mais recente condição de 'mulher que perdeu o fato de banho enquanto nadava', decidiu-se a ir para a praia e pedir ajuda a um dos muitos veraneantes que por lá andavam.
Talvez alguém lhe pudesse emprestar uma toalha ou algo que a cobrisse, pelo menos até chegar a casa, não muito longe dali.
À medida que ía nadando para a margem, apercebeu-se da presença de uma rapariga que também nadava na sua direcção.
Quando chegou perto dela reconheceu que trazia consigo o seu fato de banho.
À pergunta de como o tinha encontrado respondeu-lhe que tinha sido uma linda sereia envolta num belo vestido de espuma do mar a pedir-lhe para entregar aquele presente.
Da mesma forma como apareceu, desapareceu, não sem antes ter sorrido de forma enigmática para a Sra Isotta Barbarino.
Esta, ainda perplexa com o sucedido, vestiu o fato de banho, saiu da água e dirigiu-se para o pequeno bar de praia.
«Deseja tomar alguma coisa?», perguntou a empregada.
«Precauções», disse.
«Perdão? Não entendi», respondeu a rapariga.
«Nada», disse ela, sorrindo sem querer sorrir. «Estava a pensar noutra coisa. Pode trazer-me um sumo de laranja com gelo?»

... e crítica ao meu texto !

" ( ... )
Devo referir, a terminar, que o seu exercício denota uma interiorização bastante plena e criativa do já distante legado aristotélico sobre o humor. Para além disso, a rescrita de Calvino foi particularmente versátil. E flexível. Uma boa moldagem.
O universo do risível e os seus impactos constituem um projecto sem fim. Mas a incorporar sempre, sem excepção, em todo o tipo de textos.
Desejo-lhe mais uma boa semana!
Com toda a estima e amizade, Luís Carmelo."