quarta-feira, 7 de abril de 2010

O Humor como textura da narração ...

Continue a narrativa de Italo Calvino, tentando articular o seu texto com um dos condimentos de humor aristotélicos, seja oriundo da Poética ou da Retórica !

“Quando tomava banho numa praia ocorreu à Srª. Isotta Barbarino um desagradável contratempo. Nadava ela ao largo, quando, parecendo-lhe altura de regressar, e já se dirigia para a margem, se apercebeu de que um facto irremediável acontecera. Perdera o fato de banho.”
(Ítalo Calvino, Os Amores difíceis, Arcádia, Lisboa, sd/1968, p. 27).



Acometida por um súbito ataque de riso, fintou com ligeireza o desagradável contratempo. Deu mais umas braçadas enquanto pensava no que poderia ter sucedido ou se seria uma vez mais a imaginação a pregar-lhe uma partida !
Muito irrequieta andava aquela nestes últimos tempos !
Quando levantou a cabeça de forma a orientar-se, vislumbrou uns metros mais à frente um pequeno volume branco.
«O meu fato de banho», pensou.
Nadou para lá o mais rápido que conseguiu, e tendo lá chegado, agarrou logo no dito volume.
Mas se logo o agarrou, no mesmo instante o largou.
Era uma alforreca !
Resignada à sua mais recente condição de 'mulher que perdeu o fato de banho enquanto nadava', decidiu-se a ir para a praia e pedir ajuda a um dos muitos veraneantes que por lá andavam.
Talvez alguém lhe pudesse emprestar uma toalha ou algo que a cobrisse, pelo menos até chegar a casa, não muito longe dali.
À medida que ía nadando para a margem, apercebeu-se da presença de uma rapariga que também nadava na sua direcção.
Quando chegou perto dela reconheceu que trazia consigo o seu fato de banho.
À pergunta de como o tinha encontrado respondeu-lhe que tinha sido uma linda sereia envolta num belo vestido de espuma do mar a pedir-lhe para entregar aquele presente.
Da mesma forma como apareceu, desapareceu, não sem antes ter sorrido de forma enigmática para a Sra Isotta Barbarino.
Esta, ainda perplexa com o sucedido, vestiu o fato de banho, saiu da água e dirigiu-se para o pequeno bar de praia.
«Deseja tomar alguma coisa?», perguntou a empregada.
«Precauções», disse.
«Perdão? Não entendi», respondeu a rapariga.
«Nada», disse ela, sorrindo sem querer sorrir. «Estava a pensar noutra coisa. Pode trazer-me um sumo de laranja com gelo?»

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