sábado, 16 de outubro de 2010

Recordar-te

Recordo-te. Meigo, agarrando-me com um beijo e um abraço fechado, como se os braços contivessem neles e naquele momento uma união que sempre parecia ter sido. Fazíamos dos olhos cofres onde nos guardávamos em silêncios de amor. As nossas mãos encostadas beijavam-se e penetravam-se de tanto pertencerem uma à outra; e falavam; diziam o que as palavras adiavam, como se ficassem suspensas pela vontade de perpetuar esse encantamento que nos embebedava um do outro. Íamo-nos entregando sem dar um nome a essa entrega, como se no dia em que o fizéssemos o encantamento se quebrasse. Mas esse encantamento tinha um senão: deixava vazios - quando saía do teu abraço, ficava-me apenas a ausência dele; ficava-me apenas aquele silêncio de ti, que se perpetuava até ao dia em que voltávamos a encontrar-nos. O encantamento parecia apenas ser possível naquele dia, naquelas horas, naquele espaço, em que não era preciso dar nome às coisas que aconteciam quando nos olhávamos - pertencíamo-nos, ali, naquele momento, naquele tempo, naquele espaço; virávamos as regras do mundo e podíamos ser um do outro porque, quando acabava, afinal tudo continuava igual e o mundo lá fora persistia impávido e intocado. Parecia que havíamos reconquistado o poder da nossa magia da infância, em que o brincar ao faz-de-conta nos permitia aceder a momentos de felicidade supostos impossíveis, a realidades contornadas e esculpidas na medida dos nossos desejos. Era uma magia que permitia conciliar alegremente o querer e o não dever, o desejar e o não poder, como se precisássemos urgentemente desse espaço aconflitual para nos permitirmos sentir o que sentíamos, para nos permitirmos ser ... só que a magia tem prazos, sob pena de sermos engolidos por ela e desaparecermos do mundo real, para figurarmos em histórias intermináveis de fadas madrinhas, príncipes e princesas encantadas, mas irreais.
E o encantamento iria persistir sem a magia ? Sim, persistiu, mas foi cedendo ao tal mundo que parecia impávido, mas não era; até porque agora, sem a magia, o mundo já não era só nosso, nele já não podíamos fazer-de-conta.
E então, foste-me danto a tua ausência ...
Sabes que havia dias em que acordava e era como se uma mão de negrume se apoderasse da minha alma e era tudo negro, cá dentro ?
Faltavam-me a força, a cor, o quente, a luz.
Enclausurei-me no mundo das memórias; da vida apenas queria o silêncio total, para que aquelas não esvoaçassem para longe, onde não as pudesse tocar mais.
Já passou tanto tempo ...
A dor amansou; vais saindo de mim e o teu ir é o deixar de sentir; é já não experimentar o tumulto da pressa do coração com as letras do teu nome; vejo-te ali, mas já não somos uma ténue mistura.
Contigo foi-se também o vazio negro, o abraço de geada onde eu me dependurava, a querer enganar a solidão. Estou só, mas é uma solidão mansa, a do reencontro. Há muito que me perdera de mim e ainda está quase tudo por desvendar !