domingo, 13 de novembro de 2011

Sem Título

Quando entre Clara e o amanhecer se estabelecia um parentesco cúmplice ...
Nada de anseios. Preocupações. Receios.
E as cores? As cores que ilustravam a paisagem ...

domingo, 2 de outubro de 2011

Premissas Dramáticas

O oceano que marulha em nós conduz a uma terra de ninguém !

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O mar fala de ti


Tenho saudades da tua mão na minha. Do tempo que sem ser nosso roubávamos sem pensar. Tenho saudades das nossas palavras desassossegadas e da sensação no meu corpo de que o mar estava perto.
Não sei onde estás quando hoje olho o mar, quando invento as palavras ou a dor e depois, sabes, parece noite ...
Caiu a noite sobre o nosso mar, pesada de silêncios e de abandonos.
Contemplo as ondas desfeitas e as tuas palavras perdidas nas suas espumas.

De regresso à escrita ... ;)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Poetisa

Mal sabia já se estava acordada, se acabara por adormecer, quando apercebi um leve ruído e vi um desconhecido de pé, junto ao tronco da árvore, um homem idoso envergando vestes azuladas e de expressão bondosa.
Recitou alguns versos. Versos tão belos e conformes às normas dos grandes poetas que o meu coração ameaçou estacar.
- Oh, quem és tu, exclamei, que tens o poder de ler na minha alma e dizer versos mais belos do que todos quantos alguma vez ouvi ?
O desconhecido sorriu com o sorriso dos perfeitos e disse:
- Se queres tornar-te poetisa, vem comigo. Encontrarás a minha cabana perto da nascente do Grande Rio, nas montanhas a noroeste. O meu nome é Mestre-da-palavra-de-plenitude.
Com isto, o ancião entrou na estreita sombra da árvore e desapareceu rapidamente.
Sabendo claramente como estava predestinada para ser poetisa, e reconhecendo que os sonhos dos poetas são habitados por uma beleza e um encanto que, em vão, consegue-se encontrar nas coisas da realidade decidi partir à sua procura.
Após ter andado muito tempo cheguei à nascente do rio e encontrei uma cabana de bambu, erguida em absoluto isolamento e, diante da cabana, o ancião que vira junto à margem, perto da árvore, sentado sobre um tapete de vime entrançado. Tocava alaúde, e quando aproximei-me respeitosamente, não se ergueu nem saudou, mas limitou-se a sorrir e fez os dedos delicados correr sobre as cordas. Uma música maravilhosa pairou sobre o vale como nuvem argêntea, de forma que como num doce encantamento esqueci tudo o mais, até que o Mestre-da-palavra-de-plenitude poisou o alaúde e penetrou na cabana.
Segui-o cheia de respeito, e permaneci com ele, como sua discípula.
Transcorreram dois anos, ao longo dos quais aprendi a tocar cítara, flauta e, mais tarde, segundo ordem do mestre comecei a compor poemas e aprendi a arte oculta de, aparentemente, dizer só o que é simples e modesto, mas com isso bulir na alma do auditor, como o vento num espelho de água. Descrevi o assomar do Sol, em como hesita na orla da montanha, e o deslizar silencioso dos peixes, quando eles, como sombras, fogem por sob as águas, ou o balancear de um jovem salgueiro ao vento primaveril, e quando se escutava isto, já não era somente o Sol, e o jogo dos peixes, e o sussurrar do salgueiro senão que, de todas as vezes, parecia que o céu e a terra, por momentos, ressoavam em uníssono, numa melodia perfeita !

terça-feira, 10 de maio de 2011

A Viagem da Coruja Branca


Sinto.
Sinto um fluxo de energia que parte do meu umbigo, aquece-me o ventre e sobe por mim acima.
Deixo o meu espírito libertar-se docemente do corpo, como uma borboleta que se liberta do envólucro da larva.
Torno-me um espírito leve, transparente, imaterial.
Agarro-me ao raio de luz e com ele viajo.
Tudo é azul-claro e branco à minha volta.
Ouço uma melodia com um acorde em dó. Os instrumentos são essencialmente instrumentos de vento. Flautas, Trompas, Didgeridoo. Faz-me lembrar Bach.
De tanto subir, já estou muito alta, no céu.
Largo o raio de luz e não caio.
Sim, não caio ! Olho para a esquerda e para a direita por sobre os ombros e vejo coisas longas e leves.
São asas.
Transformei-me no meu nawal e sou agora uma bela coruja branca.
Passo sobre o oceano, lençol escuro, verde e azul-marinho.
Aquilo que a início pareciam ilhas, são afinal baleias. Um grupo de baleias brancas que cantam e brincam, deixando sair vapor e enfiando-se dentro de água.
Prossigo e chego a uma zona de montanhas altas, quentes e fumegantes. Vulcões. Através da sua lava quente e avermelhada apercebo-me do sangue do planeta Terra.
Gaia.
Aproximo-me de um dos vulcões. Enorme, parece uma boca.
A Terra fala comigo. Emite um som grave e contínuo, de tal forma pesado e subtil que apercebo-me bem da minha incapacidade para o agarrar.
Saúdo então o vulcão e continuo o voo.
Chego a um país quente e vejo um deserto de areia.
As dunas praticamente imóveis fazem-me lembrar uma grande toalha branca colocada sobre um oceano petrificado.
Também é belo o deserto.
O vento que aflora.
Rosas de areia.
Dunas douradas.
Despacho-me e decido ir até ao Tibete, o telhado do mundo.
Avisto Lassa, a cidade dos lamas. Ali os monges utilizam enormes trombetas que emitem sons que fazem vibrar tudo ao seu redor. São vibrações graves que recordam-me a voz da Terra.
Um grupo de lamas medita em enormes salas. Nunca tinha visto tanto espírito levantar voo ao mesmo tempo. Parecem um verdadeiro bando de estorninhos transparentes.
Ao longo da minha viagem, a Terra estende-se sob o meu corpo. Tudo é castanho ou ocre, com zonas de prados verde-claros e verde-escuros.
Ouve-se agora uma música em acorde de sol. Os instrumentos são essencialmente percussões e vozes humanas. A sua composição faz pensar em cantos gregorianos ritmados por tan-tans africanos.
Tomo uma decisão importante e vou até minha casa.
Ali, na Azóia ( Cabo da Roca ), reparo bem no terreno, nas árvores, nas rochas. O meu terreno, as minhas árvores, as minhas rochas, as minhas plantas, a minha relva, o meu céu.
É sobre este terreno que vou construir o meu refúgio.
Nele, hei-de ter um jardim com uma armada de duendes completamente devotados à minha protecção. Instalo uma pequena floresta para que os elfos me possam visitar discretamente à noite. As sereias também não ficarão mal na minha pequena piscina, mas penso em arranjar-lhes uma caverna aquática onde elas se possam esconder. Sabem como são as sereias. São tímidas ... ;)
Finalmente, vou descansar um pouco para a praia.
Uma praia de areia fina e cálida nos bordos de um lago. As cores são pastel. A água é turquesa com reflexos malva. A areia é negra com reflexos lilás. Ouço uma música sobre um acorde em lá. É uma melodia essencialmente dominada por instrumentos de corda: harpa, bandolim, violão.
Penso em Vivaldi e adormeço !

terça-feira, 5 de abril de 2011

Alma de Vento Branco


Provinham da mesma família galáctica. Ele, Vento Ressonante Branco, era filho de Humano Amarelo e Terra Vermelha. Ela, Vento Solar Branco, era filha de Vento Branco e Mão Azul.
Conheceram-se no Ano Mago Planetário Branco, naquele ano em que para ela a noite ainda era um manuscrito celeste e as ruas uma fusão musical.
Em que ela própria era feita da matéria dos sonhos, das miragens, dos poemas, das neblinas, das ficções.
Amou.
Ele levou-a ao mundo das ilusões incontestáveis, à maravilha da magia e da fantasia. Era o caminho secreto que levava às fontes do prazer, aos lugares míticos, aos mares enfeitiçados. Era o seu destino e a sua viagem.
Ele, guiado pelo poder da intemporalidade, canalizava o pulsar dela. Inspirava a realização do seu alento. Ambos selavam a entrada do espírito: ele, com um tom ressonante de harmonização e ela, guiada pelo poder do infinito, com um tom solar de intenção.
Completavam-se. Ele inspirava o espírito. Ela realizava-o.
Escutando a música do vento, tinha por hábito conduzi-lo no seu barco para as nuvens onde o sol e a lua eram apenas para eles dois. De lá, adorava contemplar o rio. Conhecia-lhe as cores, consoante as alegrias ou as dores que manifestava: esverdeada, de chumbo, doirada, prateada, azul-celeste, azul-turquesa. O rio, como as pessoas, possui sentimentos. Tudo o que vive possui sentimentos. Chegou a pensar que as diversas tonalidades do rio correspondiam às alterações da sua sensibilidade.
E, nos momentos em que a lua pintava de prata as paredes do céu, ele aproximava-se dela com o seu cheiro a mar, misturado com alfazema e limão, a sua barba macia onde os seus dedos se perdiam e tomava o seu corpo como ela sempre soube que um dia o tomaria. Tudo acontecia como se a cama de estrelas fosse um barco balançando nas ondas ao pôr-do-sol em gestos lentos que o sono esfarrapava.
( ... )

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Sra Dª Casca de Cacau Torrado


Inspire-se num sabor qualquer que seja, delicioso ou até mesmo desagradável, e conte-nos o que ele lhe inspirar: um conto, uma memória, um desejo, etc ...
Modalidade: livre
Limite: 350 palavras

Numa típica tarde de Inverno, em que tapada pela nostalgia do frio folheava as flanelas de um livro ao mesmo tempo que tomava uma reconfortante leitura quente, Paula aconchegou-se melhor naquele momento perfeito enquanto bebia a sua infusão. Uma mistura deliciosa de ervas com laranja e chocolate.
Fechou os olhos e deixou-se levar pela imaginação, pelo sabor do chocolate.
Sorriu e instalou-se confortavelmente numa casca de cacau torrado que preparava-se para conduzi-la numa viagem através do tempo. Através do tempo e das lendas !
Passaram pela lua prateada e por ventos gelados, descansaram nos campos luminosos do reino dos filhos do Sol, conheceram reis, nobres e guerreiros, encantaram-se por fadas, gnomos e duendes até que recuando e recuando no tempo chegaram a Maztica, reino da deusa maia Xochiquetzal !
Desde há 1000 anos que gotas de orvalho desciam ininterruptamente pela face, enquanto contava a sua história:
Quetzcoalt, senhor do vento, apaixonado por si e não tendo sido correspondido, decidiu vingar-se e, um belo dia, com um furacão, espalhou os seus cabelos ( belos frutos de cacaueiro ) tendo assim nascido a árvore do cacau.
A casca de cacau torrado recusou-se a acreditar e ao trazer Paula de volta, semeou pelo mundo uma outra versão mais doce e poética:
No meio dos índios maias e astecas,
que foram povos profetas
o fabuloso deus do vento
com todo o sentimento

Para trazer alegria
e muita harmonia
para o homem na Terra
preparou uma surpresa em plena Primavera

Através de uma brisa que inspirou um sorriso
ele trouxe sementes de cacau do paraíso
então estas sementes trouxeram fantasia e alegria
pois com elas o Homem descobriu o chocolate com muita poesia.

E foi assim que nasceu a famosa poetisa Sra Dª Casca de Cacau Torrado !

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Viagens

Quando descem as pálpebras, abre-se o silêncio da plácida contemplação de mim e começo a viajar.
Há viagens que temos que fazer dentro de nós. Nelas encontramos vivências, lugares, afectos desaguados em estranhas penumbras de nada.
Regresso.
E quando regresso retoco de cor alguns buracos de mágoa, enquanto guardo na mão o querer, o querer aceder àquele assustador mas deslumbrante mundo de mim.
Aquele mundo que te evoca no lugar do amor !
E lembro-me sempre da Lua.
Lua que mora no arco do céu. Cigana aninhada num sonho só seu. Recortei a Lua ... seu olhar moreno, seu peito vadio amargo veneno. Pendurei seu seio no canto onde o sonho se casa com o meu.