terça-feira, 5 de abril de 2011

Alma de Vento Branco


Provinham da mesma família galáctica. Ele, Vento Ressonante Branco, era filho de Humano Amarelo e Terra Vermelha. Ela, Vento Solar Branco, era filha de Vento Branco e Mão Azul.
Conheceram-se no Ano Mago Planetário Branco, naquele ano em que para ela a noite ainda era um manuscrito celeste e as ruas uma fusão musical.
Em que ela própria era feita da matéria dos sonhos, das miragens, dos poemas, das neblinas, das ficções.
Amou.
Ele levou-a ao mundo das ilusões incontestáveis, à maravilha da magia e da fantasia. Era o caminho secreto que levava às fontes do prazer, aos lugares míticos, aos mares enfeitiçados. Era o seu destino e a sua viagem.
Ele, guiado pelo poder da intemporalidade, canalizava o pulsar dela. Inspirava a realização do seu alento. Ambos selavam a entrada do espírito: ele, com um tom ressonante de harmonização e ela, guiada pelo poder do infinito, com um tom solar de intenção.
Completavam-se. Ele inspirava o espírito. Ela realizava-o.
Escutando a música do vento, tinha por hábito conduzi-lo no seu barco para as nuvens onde o sol e a lua eram apenas para eles dois. De lá, adorava contemplar o rio. Conhecia-lhe as cores, consoante as alegrias ou as dores que manifestava: esverdeada, de chumbo, doirada, prateada, azul-celeste, azul-turquesa. O rio, como as pessoas, possui sentimentos. Tudo o que vive possui sentimentos. Chegou a pensar que as diversas tonalidades do rio correspondiam às alterações da sua sensibilidade.
E, nos momentos em que a lua pintava de prata as paredes do céu, ele aproximava-se dela com o seu cheiro a mar, misturado com alfazema e limão, a sua barba macia onde os seus dedos se perdiam e tomava o seu corpo como ela sempre soube que um dia o tomaria. Tudo acontecia como se a cama de estrelas fosse um barco balançando nas ondas ao pôr-do-sol em gestos lentos que o sono esfarrapava.
( ... )

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