sexta-feira, 20 de maio de 2011

Poetisa

Mal sabia já se estava acordada, se acabara por adormecer, quando apercebi um leve ruído e vi um desconhecido de pé, junto ao tronco da árvore, um homem idoso envergando vestes azuladas e de expressão bondosa.
Recitou alguns versos. Versos tão belos e conformes às normas dos grandes poetas que o meu coração ameaçou estacar.
- Oh, quem és tu, exclamei, que tens o poder de ler na minha alma e dizer versos mais belos do que todos quantos alguma vez ouvi ?
O desconhecido sorriu com o sorriso dos perfeitos e disse:
- Se queres tornar-te poetisa, vem comigo. Encontrarás a minha cabana perto da nascente do Grande Rio, nas montanhas a noroeste. O meu nome é Mestre-da-palavra-de-plenitude.
Com isto, o ancião entrou na estreita sombra da árvore e desapareceu rapidamente.
Sabendo claramente como estava predestinada para ser poetisa, e reconhecendo que os sonhos dos poetas são habitados por uma beleza e um encanto que, em vão, consegue-se encontrar nas coisas da realidade decidi partir à sua procura.
Após ter andado muito tempo cheguei à nascente do rio e encontrei uma cabana de bambu, erguida em absoluto isolamento e, diante da cabana, o ancião que vira junto à margem, perto da árvore, sentado sobre um tapete de vime entrançado. Tocava alaúde, e quando aproximei-me respeitosamente, não se ergueu nem saudou, mas limitou-se a sorrir e fez os dedos delicados correr sobre as cordas. Uma música maravilhosa pairou sobre o vale como nuvem argêntea, de forma que como num doce encantamento esqueci tudo o mais, até que o Mestre-da-palavra-de-plenitude poisou o alaúde e penetrou na cabana.
Segui-o cheia de respeito, e permaneci com ele, como sua discípula.
Transcorreram dois anos, ao longo dos quais aprendi a tocar cítara, flauta e, mais tarde, segundo ordem do mestre comecei a compor poemas e aprendi a arte oculta de, aparentemente, dizer só o que é simples e modesto, mas com isso bulir na alma do auditor, como o vento num espelho de água. Descrevi o assomar do Sol, em como hesita na orla da montanha, e o deslizar silencioso dos peixes, quando eles, como sombras, fogem por sob as águas, ou o balancear de um jovem salgueiro ao vento primaveril, e quando se escutava isto, já não era somente o Sol, e o jogo dos peixes, e o sussurrar do salgueiro senão que, de todas as vezes, parecia que o céu e a terra, por momentos, ressoavam em uníssono, numa melodia perfeita !

terça-feira, 10 de maio de 2011

A Viagem da Coruja Branca


Sinto.
Sinto um fluxo de energia que parte do meu umbigo, aquece-me o ventre e sobe por mim acima.
Deixo o meu espírito libertar-se docemente do corpo, como uma borboleta que se liberta do envólucro da larva.
Torno-me um espírito leve, transparente, imaterial.
Agarro-me ao raio de luz e com ele viajo.
Tudo é azul-claro e branco à minha volta.
Ouço uma melodia com um acorde em dó. Os instrumentos são essencialmente instrumentos de vento. Flautas, Trompas, Didgeridoo. Faz-me lembrar Bach.
De tanto subir, já estou muito alta, no céu.
Largo o raio de luz e não caio.
Sim, não caio ! Olho para a esquerda e para a direita por sobre os ombros e vejo coisas longas e leves.
São asas.
Transformei-me no meu nawal e sou agora uma bela coruja branca.
Passo sobre o oceano, lençol escuro, verde e azul-marinho.
Aquilo que a início pareciam ilhas, são afinal baleias. Um grupo de baleias brancas que cantam e brincam, deixando sair vapor e enfiando-se dentro de água.
Prossigo e chego a uma zona de montanhas altas, quentes e fumegantes. Vulcões. Através da sua lava quente e avermelhada apercebo-me do sangue do planeta Terra.
Gaia.
Aproximo-me de um dos vulcões. Enorme, parece uma boca.
A Terra fala comigo. Emite um som grave e contínuo, de tal forma pesado e subtil que apercebo-me bem da minha incapacidade para o agarrar.
Saúdo então o vulcão e continuo o voo.
Chego a um país quente e vejo um deserto de areia.
As dunas praticamente imóveis fazem-me lembrar uma grande toalha branca colocada sobre um oceano petrificado.
Também é belo o deserto.
O vento que aflora.
Rosas de areia.
Dunas douradas.
Despacho-me e decido ir até ao Tibete, o telhado do mundo.
Avisto Lassa, a cidade dos lamas. Ali os monges utilizam enormes trombetas que emitem sons que fazem vibrar tudo ao seu redor. São vibrações graves que recordam-me a voz da Terra.
Um grupo de lamas medita em enormes salas. Nunca tinha visto tanto espírito levantar voo ao mesmo tempo. Parecem um verdadeiro bando de estorninhos transparentes.
Ao longo da minha viagem, a Terra estende-se sob o meu corpo. Tudo é castanho ou ocre, com zonas de prados verde-claros e verde-escuros.
Ouve-se agora uma música em acorde de sol. Os instrumentos são essencialmente percussões e vozes humanas. A sua composição faz pensar em cantos gregorianos ritmados por tan-tans africanos.
Tomo uma decisão importante e vou até minha casa.
Ali, na Azóia ( Cabo da Roca ), reparo bem no terreno, nas árvores, nas rochas. O meu terreno, as minhas árvores, as minhas rochas, as minhas plantas, a minha relva, o meu céu.
É sobre este terreno que vou construir o meu refúgio.
Nele, hei-de ter um jardim com uma armada de duendes completamente devotados à minha protecção. Instalo uma pequena floresta para que os elfos me possam visitar discretamente à noite. As sereias também não ficarão mal na minha pequena piscina, mas penso em arranjar-lhes uma caverna aquática onde elas se possam esconder. Sabem como são as sereias. São tímidas ... ;)
Finalmente, vou descansar um pouco para a praia.
Uma praia de areia fina e cálida nos bordos de um lago. As cores são pastel. A água é turquesa com reflexos malva. A areia é negra com reflexos lilás. Ouço uma música sobre um acorde em lá. É uma melodia essencialmente dominada por instrumentos de corda: harpa, bandolim, violão.
Penso em Vivaldi e adormeço !